Pesquisar este blog

27 de out. de 2022

POLÍTICA/ELEIÇÕES 2022

Nota do Cimi: impedir a reeleição do atual presidente é tarefa histórica de quem defende a democracia e a diversidade

Neste momento decisivo, o Conselho Indigenista Missionário soma-se à luta pela construção de uma alternativa ao presente governo e pela defesa de uma sociedade mais justa, igualitária e plural

Arte e foto: Verônica Holanda/Cimi

Arte e foto: Verônica Holanda/Cimi

“Já não basta dizer que devemos preocupar-nos com as gerações futuras; exige-se ter consciência de que é a nossa própria dignidade que está em jogo”
Laudato Si’, 160

O Brasil vive um momento histórico decisivo. As eleições presidenciais de 2022 serão cruciais não só para a democracia brasileira, mas para o futuro da vida no planeta e da própria humanidade. O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) soma-se às pessoas que lutam pela construção de uma alternativa ao presente governo e pela defesa de uma sociedade mais justa, igualitária e plural, calcada no pacto constitucional estabelecido em 1988.

Os últimos quatro anos foram marcados pela erosão democrática e pelo desmonte das instituições do Estado brasileiro, alvos dos ataques constantes do atual governo. Esses ataques atingiram especialmente os grupos sociais minoritários e em situação de maior vulnerabilidade, e ficaram ainda mais evidentes durante a desastrosa gestão da pandemia, que custou ao nosso país quase 700 mil vidas.

Os povos indígenas também têm vivenciado, sob a gestão do presente governo federal, um contexto inédito de ataques contra seus direitos constitucionais, seus territórios e sua própria existência. Desde a campanha presidencial de 2018, quando prometeu não demarcar “nenhum centímetro” de terra aos povos originários, o atual mandatário fez da postura anti-indígena uma de suas marcas.

Na presidência, apresentou projetos legislativos e editou medidas infralegais que buscaram inviabilizar o reconhecimento dos territórios tradicionais indígenas e entregar as terras já demarcadas a grandes empresas, latifundiários e invasores. A atual gestão do governo federal desmontou mecanismos de proteção territorial, fiscalização ambiental e assistência a comunidades indígenas.

O desvirtuamento a que a Fundação Nacional do Índio (Funai) foi submetida evidencia o verdadeiro sequestro do Estado brasileiro e de suas instituições, que passaram a ser atacadas e corroídas por dentro.

O atual presidente atuou incansavelmente para desconstituir o pacto de 1988 e desmontar os mecanismos de fiscalização de crimes contra os povos e comunidades tradicionais e contra o meio ambiente.

O balanço desastroso dos últimos quatro anos é evidenciado pelo relatório anual em que o Cimi compila as violências contra os povos indígenas no Brasil – e que registrou, neste período, um aumento vertiginoso de ataques, invasões e violações diversas dos direitos destes povos.

Os diversos dados sobre o aumento do desmatamento, das queimadas e do garimpo ilegal, especialmente em biomas como a Amazônia e o Cerrado, corroboram este cenário calamitoso.

Ao longo dos últimos quatro anos, ao invés de atuar como mediador e defensor dos bens públicos de nosso país, o atual presidente usou todos os instrumentos ao seu alcance para entregar o patrimônio dos povos indígenas a grupos de interesse privados – e só não foi mais bem-sucedido em seus intentos porque sofreu reveses judiciais, despertou a reação da sociedade civil e, sobretudo, porque enfrentou a resistência dos povos originários.

Se, por um lado, o atual mandatário já deixou claro em diversas ocasiões seu desprezo pela democracia e pelos direitos constitucionais indígenas, por outro, evidencia a cada passo sua disposição ao golpismo, sua postura autocrática e sua admiração por regimes autoritários.

O Cimi, fundado há 50 anos em meio à resistência contra a Ditadura Militar, a repressão e a censura, faz coro aos que repudiam o atual governo federal e defendem a democracia e a liberdade.

Respeitar estes valores significa respeitar, especialmente, o direito à diversidade dos povos que vivem e são parte fundamental do que é o Brasil. Por tudo isso, o Cimi se soma aos que acreditam que, em 2022, a esperança deve vencer o medo e a tirania.

 

Conselho Indigenista Missionário

Brasília (DF), 26 de outubro de 2022

Compartilhar: 
Tags: 

12 de out. de 2022

MEIO AMBIENTE

Prefeitura de Cachoeirinha através da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Defesa Civil realizaram nesse início de outubro Ações Preventivas contra incêndios florestais no território Apinajé

 


Nesta terça-feira, 11 de outubro de 2022, a Prefeitura de Cachoeirinha, através da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Defesa Civil realizaram ações de Prevenção contra incêndios florestais no território Apinajé. Foi utilizado um trator para fazer aceiros preventivos com finalidades de proteger as matas ciliares e nascentes do Ribeirão dos Caboclos e Ribeirão São Bento que abastecem as aldeias Cocalinho, Mata Verde e os vizinhos não-índios que moram às margens desses Ribeirões na linha de divisa com a terra indígena.

 

Essas Ações realizadas pela Prefeitura Municipal de Cachoeirinha no âmbito das Políticas do ICMS Ecológico, são fundamentais e necessárias para proteger as áreas de florestas, nascentes e a biodiversidade da fauna e flora do Cerrado nesta terra indígena. A proteção e defesa das florestas que ainda existem neste território depende muito dessas Ações planejadas e executas de forma antecipada e preventiva para evitar que esse patrimônio seja destruído pelo fogo.


 

Os aceiros ou ramais no entorno dessas áreas de florestas e nascentes também facilitam as Ações de aplicação do Manejo Integrado do Fogo-MIF, permitindo e facilitando a mobilidade dos Brigadistas, quando estão em campo combatendo possíveis focos de incêndios. A comunidade indígena também se beneficia utilizando esses ramais para fazer a coleta de frutas, caçar, pescar, pegar lenhas, remédios e realizar monitoramento territorial.   

 

No período crítico de julho a setembro os incêndios florestais descontrolados tem potencial para ameaçar e destruir áreas de campos, florestas, roças, pastagens, cercas, aldeias e cidades. Os incêndios também podem danificar redes de energia elétrica e dificultar o transito nas rodovias. No período das queimadas ocorrem muitos casos de doenças respiratórias. A fumaça inalada pelas pessoas, pode causar pneumonia, dores de cabeça, febre, enjoo, fadiga e cansaço. As Unidades Hospitalares de nossa região costuma ficar lotadas de pacientes com esses sintomas nesse período.
    

Diante dessa situação emergencial, precisamos nos preparar e nos organizar junto com esses órgãos públicos para proteger e defender nossas florestais, águas e frutas nativas que representam importante fonte de geração de renda. Determinadas áreas de florestas aonde ocorrem a reprodução animal também devem ser resguardadas e protegidas dos incêndios florestais.


 

Este ano no período entre final de agosto e início de setembro incêndios fora de controle destruíram extensas áreas de campos, (florestas) e algumas nascentes formadoras do Ribeirão Botica e Ribeirão Grande localizadas entre os municípios de Maurilandia e Tocantinópolis. Após intensa mobilização e enfrentando dificuldades logística os Brigadistas indígenas do IBAMA/Prev-Fogo conseguiram controlar o fogo, mas o estrago e o prejuízo já estava feito. 

 

Esses danos ambientais e patrimoniais no território poderiam ter sido evitados se houvesse mais interesse, planejamento e vontade política dos gestores dos municípios de Tocantinópolis, Maurilândia e São Bento do Tocantins, que a partir de conversas e entendimentos com as comunidades Apinajé poderiam planejar, organizar e executar Ações preventivas de proteção ambiental na área indígena. Atualmente não existe sequer diálogo com os Prefeitos desses municípios neste sentido.

 

Mas, as Prefeituras também podem criar suas próprias Brigadas Municipais, para atuarem na prevenção e combate ao fogo. O ideal é que as Ações devam acontecer em parceria e colaboração com a FUNAI, IBAMA Prev-Fogo e demais órgãos que atuam na terra indígena. Ações conjuntas tem mais chances de êxito. A ideia das Brigadas voluntárias criadas e mantidas pelas próprias comunidades podem somar na prevenção e conscientização contra os incêndios. As Brigadas voluntárias podem ser também uma força auxiliar importante no diálogo com as comunidades.

 

 

Terra Indígena Apinajé, 12 de outubro de 2022

 

Associação União das Aldeias Apinajé-Pempxà

8 de set. de 2022

INCENDIOS FLORESTAIS

Incêndios fora de controle no Cerrado, atingem aldeias Apinajé no Norte de Tocantins. Áreas de florestas, matas ciliares e nascentes estão sendo destruídas. Famílias da aldeia Palmeiras, sofrem com a fumaça, fuligem e poluição do ar

No Mapa da T.I. Apinajé, áreas em vermelho que já foram queimadas. (foto: IBAMA, setembro de 2022)
No período entre julho e setembro de cada ano é tempo de alertas e riscos de incêndios florestais no Cerrado e Amazônia. A estiagem, tempo seco, falta de chuvas, ventos fortes e umidade do ar baixíssima contribui para surgimento e alastramento de incêndios que podem destruir a vida das florestas, pastagens, cercas, danificar redes de energia elétrica, destruir plantações, roças, (aldeias), povoados e causar muitos outros danos.

No ponto de vista ambiental ano de 2022 continua sendo muito difícil para todas as comunidades indígenas, especialmente aquelas localizadas em (determinadas) áreas rurais. Desde final de agosto e início de setembro que incêndios fora do controle se alastram destruindo áreas de campos, florestas, matas ciliares e nascentes no território Apinajé, localizada nos municípios de Tocantinópolis, Maurilandia, São Bento do Tocantins e Cachoeirinha, no Norte de Tocantins.

Na frente de combate somente 16 Brigadistas Indígenas do Prev Fogo se revezam a cada semana em plantão (24h) dia e noite lutando e tentando controlar o fogo no território. A Brigada Apinajé é composta por 02 esquadrões, cada Esquadrão formado por 08 combatentes. Além do combaterem de forma exaustiva e sob intensa pressão psicológica, essas Equipes também sofrem com o abandono e precarização estrutural do IBAMA; órgão que estão diretamente vinculados.

Brigadista fazendo combate à noite na região da aldeia Palmeiras. (foto: IBAMA/Prev-Fogo, setembro de 2022)
Nos últimos 04 anos temos verificado a falta de condições mínimas para atuação dos Brigadistas Indígenas na prevenção e combate aos incêndios. A Brigada Apinajé só dispõem de 01 viatura para deslocamentos dos Brigadistas no território e outra para realizar serviços da Equipe na cidade ou nas aldeias; sendo que 1 dessas viaturas está quebrada. Em 2021 os Brigadistas, em algumas situações se deslocaram de motos para aplicação do Manejo Integrado do Fogo-MIF no território. 

Ressaltando o fato que o IBAMA e a FUNAI sempre atuam juntos em Ações de proteção e defesa ambiental nas terras indígenas, acontece que a situação da FUNAI CTL Local de Tocantinópolis, também é de total abandono, precarização e descaso. João Batista Santos Filho, Coordenado local da FUNAI em Tocantinópolis, disse que está fazendo o possível para ajudar, mais não dispõem de uma viatura sequer. O única camioneta 4X4 com condições de auxiliar está quebrada em Palmas. Lembrando que além dessa falta de veículos a CTL Local em Tocantinópolis, encontra se há mais de 02 anos sem telefone e internet.

Há duas semanas que esse incêndio queima as florestas na região da aldeia Palmeiras, a situação se agravou ontem dia 07/09/2022, quarta-feira, os moradores reclamam que o ar está irrespirável, que ainda existe muitas fuligens e poluição atmosférica no período da noite, por essa razão as grávidas, idosos e crianças recém-nascidas tiveram que ser removidas para outras aldeias mais distantes do local. A remoção e transportes de outras pessoas que ainda se encontram na aldeia Palmeiras, está sendo feita por 02 viaturas do Polo Base Indígena-PBI de Tocantinópolis.

Na aldeia Palmeiras, fogo e intensa fumaça próximo das casas. (foto: IBAMA/Prev-Fogo. Setembro de 2022)
As florestas no entorno da aldeia foram consumidas pelo fogo. Na manhã de hoje 08/09/2022 o Sr. Alexandre Conde, Gerente Estadual do IBAMA/Prev Fogo informou que os Brigadistas conseguiram controlar o incêndio na região da aldeia Palmeiras. Mas o trabalho das Equipes deve continuar, pois existem ainda pelo menos 02 focos de incêndios ativos no território. Alexandre Conde disse ainda que nesta quinta-feira 08/09/2022, chegarão reforços da Brigada Xerente que foram chamados para auxiliar no combate aos incêndios no território Apinajé

É importante destacar que após um incêndio os problemas e consequências continuam refletindo na vida da população. A queima da floresta, resulta na diminuição de caça, peixes, frutas e remédios naturais. O fogo também destrói as sementes do Cerrado e as palhas das palmeiras babaçu, buriti e açaí que usamos para cobrir casas e fazer artesanatos. Muitas vezes as plantações das roças também ficam prejudicadas pelo fogo. Uma área queimada e degrada pelo fogo pode demorar até 30 anos para se recuperar. Talvez nunca volte ao que era antes.

Atendendo pedido de socorro das famílias da aldeia Palmeiras, nesta quinta-feira, 08/09/2022 o Gabinete do Deputado Federal Célio Moura notificou por meio de Ofícios o Governador do Estado do Tocantins, o Comandante Geral do Corpo de Bombeiros em Palmas e as Prefeituras de Tocantinópolis, Maurilandia, São Bento do Tocantins e Cachoeirinha. Portanto neste momento de dificuldades a articulação e união entre todos os órgãos públicos no sentido de combater o fogo e evitar que mais áreas sejam queimadas e destruídas é fundamental. 

As comunidades e lideranças também devem se mobilizar para apoiar e colaborar com o trabalho dos Brigadistas. Não convém ficar de braços cruzados reclamando e criticando. Juntos podemos somar forças para defesa e proteção de nosso território e patrimônio ambiental.



Terra Indígena Apinajé, 08 de setembro de 2022


Associação União das Aldeias Apinajé-Pempxà

PBA TIMBIRA

Caciques e Organizações dos Povos Apinajé, Krahô, Krikati e Gavião (Wyty Cäte, Associação Pempxà, Associação Pyka Mex) e representantes do Centro de Trabalho Indigenista-CTI se reuniram na aldeia Prata para debater Etnomapeamento, Território e PBA Timbira


Reunião de caciques na aldeia Prata. (foto: Nayane Januário. CTI, agosto de 2022)

No período de 23 a 26 de agosto aconteceu no território Apinajé, na aldeia Prata, localizada no município de Tocantinópolis, Reunião Deliberativa com presença dos Caciques (conselheiros) Apinajé, da Diretoria da Associação Pempxà, da Diretoria da Associação Pyka Mex, dos membros do Conselho Gestor e da Comissão Apinajé. Presentes ainda presentes na Reunião os representantes da Associação Wyty Cate dos Povos Timbira de Tocantins e Maranhão, os Assessores do CTI e as lideranças e conselheiros Krahô. Ao menos 166 participantes vindos de 54 aldeias estavam presentes na Reunião deliberativa na qual os caciques debateram e decidiram sobre a Proposta do ‘Fundo Timbira’ no âmbito do Programa Básico Ambiental PBA Timbira.

No primeiro momento da Reunião foram apresentados pelos jovens os resultados dos Trabalhos de Campo (etnomapeamento) que aconteceu durante o Curso de Formação em Agentes Ambiental Timbira realizadas entre os dias 07 a 12 de junho de 2022 em áreas limítrofes e no interior do território Apinajé, que teve a participação de jovens, (homens e mulheres), Professores, Estudantes (acadêmicos) e anciãos. Ainda foram debatidos, questões relacionadas ao monitoramento, proteção, garantias territoriais entre outros assuntos. Entretanto a questão do PBA Timbira foi o principal assunto tratado.

PBA TIMBIRA: BREVE HISTÓRICO

As articulações, mobilizações e lutas dos Povos Timbira, dos ribeirinhos, das quebradeiras de coco babaçu, dos camponeses contra o Projeto de construção da UHE Estreito se intensificaram a partir do ano 2000. Nesse período todas as organizações indígenas, camponesas, ribeirinhos e aliados do Pará, Maranhão e Tocantins estiveram mobilizados também contra os Projetos das UHEs de Santa Isabel no Rio Araguaia, Marabá e Serra Quebrada no Rio Tocantins e Belo Monte no Rio Xingu. O Projeto de construção da Hidrovia Araguaia/Tocantins, foi um desses grandes projetos que os Movimentos e organizações sociais conseguiram impedir. Mas, apesar das massivas mobilizações e protestos do Movimento Indígena e aliados, as Hidrelétricas de Estreito no Rio Tocantins e Belo Monte no Xingu foram construídas.
UHE Estreito no Rio Tocantins, nos município de Estreito-MA e Aguiarnópolis-TO. (foto: divulgação CESTE)

No caso específico da UHE Estreito, no mês de julho de 2002, as Empresas Tractebel Egy South América Ltda, BHP Billiton Metais, Mineradora Vale, Alcoa Alumínio S/A e Camargo Correia venceram o Leilão, realizado pela Agencia Nacional de Energia Elétrica-ANEEL para construção da Hidrelétrica. Ao mesmo tempo as Organizações Sociais e o Movimento Indígena se articulavam para se contrapor ao discurso e narrativas desenvolvimentistas das Empresas do setor elétrico.

Nesse sentido o MAB, CPT, CIMI, CTI, ISA e o Movimento Xingú Vivo denunciavam ao MPF, à OIT e na ONU as possibilidades do acirramento de graves conflitos socioambientais gerados pela construção de grandes hidrelétricas nos rios da Amazônia, especialmente no Tocantins, Araguaia, Xingu, Tapajós e Madeira e exigiam o cumprimentos dos Termos da Convenção 169 da OIT que prevê a Consulta Livre, Prévia e Informada no caso de implantação de grandes Empreendimentos que afetam povos indígenas e seus territórios. Por sua vez os governantes e políticos alegavam a necessidade de “geração de energia limpa”, a “geração de empregos” e o “desenvolvimento do país”. Por essas razões esse já seria um fator de geração de conflitos de interesses entre Empresas e os povos afetados por grandes obras do “Programa de Aceleração do Crescimento-PAC” na Amazônia.

No tumultuado Processo de Licenciamento da UHE Estreito, inicialmente o CESTE reconheceu somente terra indígena Krahô localizada a 140 km a montante (acima) da obra como impactada “indiretamente”. Em novembro de 2002 a FUNAI encaminhou Oficio ao IBAMA requerendo a inclusão da terra Apinajé localizada a 30 km a jusante (abaixo) na área de influência do empreendimento. Em 2005 foram realizadas Audiências Públicas nos municípios de Estreito e Carolina no Maranhão e Aguiarnópolis e Babaçulandia em Tocantins. A finalidade dessas “Audiências Públicas” realizadas pelo Consórcio CESTE foram apenas para falar de medidas mitigatórias (compensatórias) e não para consultar e discutir com a população ameaçada e afetada a viabilidade social, ambiental e econômica do empreendimento.

Após Reunião na Terra Indígena Krahô a Associação Wyty Cate encaminhou Documento à FUNAI e ao IBAMA requerendo a inclusão das Terras Indígenas Krikati e Gavião nos Estudos de Impactos Ambiental-EIA. No Documento a Wyty pediu ainda pesquisas mais detalhadas nas terras indígenas ameaçadas e a não emissão de Licença Prévia sem antes resolver essas pendências. Em fevereiro de 2005, a FUNAI após se reunir com representantes Apinajé, Krahô, Krikati e Gavião, emitiu um Parecer Técnico notificando ao IBAMA... “que a Licença Prévia do Empreendimento não seja dada até que esta Instituição tenha analisado e apresentado devida análise sobre o Empreendimento”.
Reunião do Conselho Gestor na FUNAI Carolina -MA. (foto: Antonio Veríssimo abril de 2014)

Frente à essas dificuldades de dialogar com o Empreendedor, no período entre 2005 e 2008 aconteceram intensas mobilizações conjuntas dos ribeirinhos, camponeses, quebradeiras de coco babaçu e os povos Apinajé, Krahô, Krikati e Gavião, apoiados pela CPT, MAB, CIMI, CTI e Wyty Cate visando a paralisação definitiva do Empreendimento. Nesse sentido ocorreram o Bloqueio da ponte de Estreito por 12 horas, a Marchas dos Atingidos entre Araguaína e Estreito, o Acampamento dos atingidos em frente o canteiro de obras e Audiência Pública na Comissão Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado Federal em Brasília DF.

Após negociações em fevereiro de 2006 o Empreendedor contratou antropólogos ligados ao Centro de Trabalho Indigenista - CTI para realizar os Estudos complementares nas Terras Indígenas Apinajé, Krahô, Krikati e Gavião e em outubro de 2006 o CTI entregou ao CESTE os Estudos Etnioecológicos complementares. Demonstrando claro desentendimentos e falta de diálogo entre as instituições, no dia 14 de dezembro de 2006 o IBAMA concedeu a Licença de Instalação da Obra antes da FUNAI concluir análise dos Estudos Complementares que haviam sido realizados pelo CTI.

Diante desses vícios e atropelos do Empreendedor no dia 05 de janeiro de 2007 a Associação de Preservação dos Rios Araguaia e Tocantins e o Conselho Indigenista Missionário-CIMI ajuizaram Ação Civil Pública contra a União, IBAMA e CESTE na Justiça Federal de Imperatriz-MA. Simultaneamente o Ministério Público Federal-MPF dos Estados de Maranhão e Tocantins também ingressaram com os mesmos pedidos. A Justiça Federal deu Liminar embargando o Empreendimento, porém o CESTE recorreu ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região em Brasília-DF conseguindo derrubar a Liminar que suspendeu as obras.

Em dezembro de 2007, o CESTE encaminhou Proposta à FUNAI versando com relação ao implementação do Programa Básico Ambiental PBA nas terras dos povos Apinajé, Krahô, Krikati e Gavião. Com objetivos de cobrar do Empreendedor a criação de um Foro Permanente de discussões com participação do MPF, IBAMA, FUNAI, CESTE e atingidos, no dia 11 de março de 2008 os representantes dos ribeirinhos, pescadores, camponeses e povos indígenas se mobilizaram realizando protestos em frente o canteiro de obras da UHE Estreito. Mas, o CESTE de maneira unilateral decidiu não criar o Foro com participação ampla, e sim os Comitês Locais.

A partir de 2009, houveram significativas mudanças nas estratégias de conversas dos atingidos com Empreendedor, de forma que cada organização representante dos ribeirinhos, pescadores, camponeses e barqueiros passaram a negociar com o Empreendedor as medidas compensatórias para mitigar os danos e impactos da Hidrelétrica. Devido o impasse com os Povos Timbira, representados pela Associação Wyty Cate, a FUNAI continuou intermediando as conversas entre os indígenas e o Empreendedor já que o Consórcio CESTE “dificultava as negociações com indígenas”.

Mesmo sem o devido cumprimento das condicionantes, em junho de 2010 o CESTE passou a pressionar o IBAMA pela liberação da Licença de Operação-LO, porém no primeiro momento o Órgão Indigenista Oficial negou a Licença argumentando o descumprimento da Nota Técnica 31/2010. Enquanto isso continuavam as conversas entre FUNAI, CESTE e os povos Apinajé, Krahô, Krikati e Gavião negociando os Termos de um ‘Instrumento Jurídico’ ou Acordo que garantisse a compensação para mitigar os impactos da obra nessas quatro terras indígenas. Ou mesmo tempo que foram também definidos no Termos do Acordo valores e as formas de repasse para os Povos Timbira.

Em outubro de 2010 foi assinado entre o Consórcio CESTE, FUNAI e Associação Wyty Cate dos Povos Timbira de Maranhão e Tocantins o Termo de Compromisso (definitivo) para implementação do Programa Básico Ambiental-PBA Timbira nas Terras Indígenas Apinajé, Krahô, Krikati e Gavião, com validade de 10 anos. O Termo de Compromisso encerrou em 2020, e um novo Termo (Instrumento Jurídico) precisa ser elaborado, pactuado e assinado pelas partes para garantir a renovação e continuidade do PBA nas 4 terras indígenas que fazem parte do Programa.

O FUNDO TIMBIRA

Participação das mulheres Apinajé, na Reunião da aldeia Prata. (foto: Nayane Januário. CTI, agosto de 2022)

Assim a ideia ou proposta de criação do Fundo Timbira foi apresentada pela Associação Wyty Cate em Reunião dos conselheiros Apinajé, Krahô, Krikati e Gavião ocorrida nos dias 28/6 a 02/07/2022 no Centro de Formação Timbira Pinxwji Hempexa em Carolina-MA. Naquela ocasião os membros do Conselho Gestor Apinajé presentes na Reunião, após conhecerem detalhes da Proposta solicitaram outra Reunião para fins de esclarecimentos dos 62 (caciques) membros do Conselho Deliberativo Apinajé, para que os mesmos devidamente informados e esclarecidos pudessem decidir se concordavam ou não com a Proposta do Fundo Timbira.

Durante 2 dias em Reunião realizada na aldeia Prata, assunto foi amplamente debatido entre os participantes, de forma clara e objetiva os líderes foram devidamente informados sobre a proposta do Fundo. Os caciques apresentaram suas ideias, dúvidas e questionamentos em relação a Proposta de funcionamento do Fundo. E mesmo demonstrando preocupações e ansiedades, os caciques manifestaram-se favoráveis a proposta do ‘Fundo Timbira’, devendo ser pensado e discutido nas próximas Reuniões um prazo de 5 anos para experimentar esse modelo de funcionamento e gestão.

Por fim ficou acertado que serão dados os seguintes (próximos) passos nesta caminhada para renovação do Termo de Compromissos (instrumento Jurídico) necessário para renovação e continuidade do PBA Timbira nas Terras Apinajé, Krahô, Krikati e Gavião:

1) Realizar Reunião de Trabalho com o Conselho Gestor e Agências Implementadora para detalhamento das regras de funcionamento do Consórcio para gestão do Fundo;

2) Realizar Reunião com representantes dos povos Apinajé, Krahô, Krikati e Gavião, Agencias Implementadoras, FUNAI e MPF para ajustes e alinhamentos do Plano de funcionamento do Fundo Timbira;

3) Assinatura do novo Termo de Compromisso (Instrumento Jurídico) com participação de representantes dos 4 povos;

4) Retomada dos funcionamento do PBA Timbira e dos trabalhos da Agencia Implementadora



Terra Indígena Apinajé, 08 de setembro de 2022


Associação União das Aldeias Apinajé-Pempxà

2 de ago. de 2022

10ª FOSPA

 31/07/2022

No terceiro dia do X FOSPA, lideranças indígenas da Amazônia denunciam os constantes ataques sofridos dentro dos territórios

No último dia de atividades organizadas pelo Cimi no FOSPA, lideranças de diferentes regiões falaram sobre o enfrentamento à política anti-indígena e aos invasores dos territórios indígenas

Lideranças do Tocantins, do Pará e de Mato Grosso do Sul denunciam atual contexto de violência nos territórios durante mesa no Tapiri Ecumênico III, no Fospa 2022. Foto: Marina Oliveira/Cimi

POR MARINA OLIVEIRA, DA ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO DO CIMI*

O terceiro dia do X Fórum Social Pan-Amazônico – o Fospa 2022 – amanheceu com a resistência e partilha dos povos indígenas de diferentes regiões do país. Reunidos na mesa “Povos indígenas e mobilização por seus territórios, diálogo com a ecologia integral e o sínodo da Amazônia”, no Tapiri Ecumênico III, na Universidade Federal do Pará (UFPA), as lideranças falaram sobre o enfrentamento à política anti-indígena e aos invasores dos territórios indígenas.

Mediada por Eliane Franco, coordenadora do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) – Regional Goiás/Tocantins, a mesa contou com a participação de Auricélia Arapiuns, do Baixo Tapajós (PA), de Adelina Guarani Kaiowá, de Mato Grosso do Sul (MS), e Davi Krahô, de Tocantins (TO).

Em sua fala, Auricélia Arapiuns criticou a postura do atual governo. “Muitas são as estratégias que nossos inimigos estão usando. Nós, que somos filhos da Amazônia, sofremos vários ataques. São ataques às pessoas e aos territórios. Estão matando os defensores da floresta. O governo Bolsonaro conseguiu acabar com a Funai [Fundação Nacional do Índio], não demarcou um centímetro de terra. Ele quer matar a gente de fome, quer tirar nossos territórios, que acabar com a Amazônia. Mas ele não vai conseguir”, afirmou Auricélia.

“Muitas são as estratégias que nossos inimigos estão usando. Nós, que somos filhos da Amazônia, sofremos vários ataques. São ataques às pessoas e aos territórios”

“Até os territórios que deveriam ser impedidos, por lei, de fazer retirada de madeira e mineração, estão ameaçados. E essa realidade não é só de Santarém [Pará], não é só do Tapajós [Pará]. É uma realidade da Amazônia como um todo”, completou.

Demarcação Já

O atraso do julgamento do Recurso Extraordinário (RE) 1.017.365 – pelo Supremo Tribunal Federal (STF) – foi um ponto lembrado pelos participantes da mesa. Segundo Auricélia, na prática, o marco temporal faz parte da realidade dos territórios indígenas do país.

“Não concluem nunca o julgamento do marco temporal, e isso é um dos grandes problemas que temos hoje. Infelizmente, nesse momento de campanha eleitoral, as ameaças aos indígenas e indigenistas vão aumentar. As mortes de Bruno e do Dom, por exemplo, foram pensadas. Foi uma estratégia”, lamentou Auricélia.

“Não concluem nunca o julgamento do marco temporal, e isso é um dos grandes problemas que temos hoje”

Manifestação indígena contra o marco temporal, em Brasília no dia 23 de junho, 2022. Foto: Hellen Loures/Cimi

Na mesma linha, Davi Krahô, liderança indígena do povo Krahô, do estado de Tocantins (TO), também se pronunciou sobre o adiamento do julgamento pelo STF. “O marco temporal é péssimo para nós, uma vez que, se for aprovado, não teremos mais as nossas terras demarcadas. E, quem tem território demarcado, correrá o risco de perder”.

“O momento agora é de refletir e buscar o que é bom para todos nós. Temos que defender nossas terras indígenas. O nosso território é nossa morada, é nossa mãe. Se não tivermos o nosso território, vamos morrer. Iremos perder nossa língua, nossa cultura, nossa forma de viver, de se alimentar. O território é sagrado para nós”, completou a liderança Krahô.

“O momento agora é de refletir e buscar o que é bom para todos nós. Temos que defender nossas terras indígenas. O nosso território é nossa morada, é nossa mãe”

Davi Krahô durante atividade organizada pelo Cimi sobre povos livres, no X Fospa. Foto: Marina Oliveira/Cimi

Adelaide Guarani Kaiowá, liderança do estado de Mato Grosso do Sul, também denunciou os constantes ataques sofridos pelo seu povo em decorrência da não-demarcação de seus territórios. “Quero dizer que tenho uma dor no meu coração pelo genocídio que estamos vivendo no estado de Mato Grosso do Sul. Estou aqui, desesperada, por não termos nossas terras Guarani Kaiowá demarcadas”, afirmou Adelaide durante sua participação na mesa.

Entenda o RE 1.017.365

No mérito, o Recurso Extraordinário com repercussão geral (RE-RG) 1.017.365, que tramita no STF, trata de um pedido de reintegração de posse movido pelo Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA) contra a Fundação Nacional do Índio (Funai) e indígenas do povo Xokleng, envolvendo uma área reivindicada – e já identificada – como parte de seu território tradicional.

A terra em disputa faz parte do território Ibirama-Laklanõ, reduzido ao longo do século XX. Além dos Xokleng, vivem também no local indígenas dos povos Guarani e Kaingang. Os indígenas nunca deixaram de reivindicar a área, que foi identificada pelos estudos antropológicos da Funai e declarada pelo Ministério da Justiça como parte da sua terra tradicional.

Em 2019, o processo teve sua repercussão geral reconhecida pela Suprema Corte, o que significa que a decisão tomada neste caso servirá como referência para todos os outros processos, julgamentos e decisões envolvendo o tema das demarcações de terras indígenas.

A expectativa dos povos originários é que os ministros do STF se posicionem a favor dos direitos constitucionais indígenas e contra a tese ruralista do “marco temporal”, utilizada para inviabilizar as demarcações de terras indígenas. No momento, o julgamento que foi interrompido após pedido de vista do ministro Alexandre de Moraes teve um voto favorável aos povos indígenas, proferido pelo relator do caso, o ministro Edson Fachin, e um voto contrário aos direitos indígenas, expresso pelo ministro Nunes Marques.

 

Demarcação dos territórios da Amazônia

No turno da tarde, a narrativa não foi muito diferente. Durante a atividade “Demarcação dos territórios na Amazônia”, lideranças indígenas Guajajara, Guarani Kaiowá, Cujubim e Puruborá aproveitaram o momento para compartilhas com as pessoas presentes as suas vivências e lutas travadas dentro dos territórios.

Mário Puruborá, liderança do estado de Rondônia, falou sobre a importância de proteger os territórios. “Se não mantermos os territórios, não teremos vida. Esse mundo não viverá 50, 60 anos se não tivermos o cuidado com os territórios indígenas. E onde ainda tem floresta? É justamente em áreas demarcadas, áreas de conservação. Mas mesmo assim o governo está indo até esses lugares e destruindo tudo”, lamentou.

“Se não mantermos os territórios, não teremos vida. Esse mundo não viverá 50, 60 anos se não tivermos o cuidado com os territórios indígenas”

Lideranças indígenas e público que esteve presente na atividade organizada pelo Cimi sobre “Demarcação dos territórios na Amazônia”, no Fospa 2022. Foto: Marina Oliveira/Cimi

Do Maranhão, Olimpio Guajajara, liderança do povo Guajajara, disse que, apesar de ser de uma terra indígena já demarcada, o território “não sai da mira do governo, da destruição e da ambição do estado brasileiro”. Por isso, Olimpio disse que o seu povo criou a própria estratégia de proteção dentro do território.

“Nós, Guajajara, decidimos que nós mesmos quem iremos tomar conta do território. Por isso, os Guardiões da Floresta foi criado. Criamos esse grupo e discutimos como iria funcionar os trabalhos. E o trabalho dos guardiões é exatamente guardar e preservar os nossos conhecimentos, a nossa cultura, as nossas tradições, o nosso modo de viver. Nós conseguimos nos unir e mostrar que o nosso trabalho é importante a nível mundial. Queremos minimizar os impactos climáticos do planeta, permitir que o planeta respire um pouco”, explicou.

 

“Terras Indígenas não demarcadas: Amazonas e Roraima”

Logo após o encerramento das partilhas, Francesc Comelles – Chiquinho –, missionário do Cimi – Regional Norte I apresentou o livro “Terras indígenas não demarcadas: Amazonas e Roraima”.

A publicação é resultado de um amplo processo participativo e tem como objetivo resolver essa lacuna nos registros sobre territórios indígenas nos estados do Amazonas e de Roraima. O livro também foi apresentado na tarde desse sábado (30), na tenda Tapiri, um espaço do Fospa, em um momento de divulgação de publicações.

Pouco se sabe sobre esses territórios ocupados por indígenas, além de que lhes falta a documentação necessária para que o Estado e a sociedade brasileira os reconheça como de posse dos povos originários. A própria Funai não possui as devidas e completas informações sobre essas terras.

Essa ausência de informações contribui com a invisibilidade tanto das terras como de seus habitantes, aprofundando preconceitos e discriminação. Por não possuírem o reconhecimento de seus territórios, são tratados como se não fossem indígenas.

Assim, na intenção de contribuir com informações precisas e concretas sobre essa realidade, o Cimi – Regional Norte I desencadeou um processo de levantamento das terras indígenas que ainda não estão demarcadas, mas que se encontram em alguma das etapas do processo demarcatório definido pelo Estado brasileiro, na Constituição Federal de 1988.

 

*Com informações de materiais anteriores do Cimi

Compartilhar: 

PÀRKAPER