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1 de fev. de 2020

COMUNICADO DE IMPRENSA


COMUNICADO DE IMPRENSA DA SURVIVAL INTERNATIONAL

“Um plano genocida”: a Survival reage a nova proposta para a Funai

31 de janeiro, 2020

Ricardo Lopes Dias, o missionário proposto como novo coordenador geral do departamento de índios isolados da Funai. © Ricardo Lopes Dias
O governo do Presidente Jair Bolsonaro propôs o missionário evangélico, Ricardo Lopes Dias, para comandar a Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) da FUNAI. Lopes Dias trabalhou muitos anos com a Missão Novas Tribos do Brasil (MNTB), agora conhecida também como Ethnos360.

A notícia da nomeação de Lopes Dias está causando indignação ao redor do mundo.
A COIAB, Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, afirmou em nota: “Nossas famílias sofreram historicamente com a atuação de missionários proselitistas - muitos deles da Missão Novas tribos do Brasil (MNTB) - que fizeram contato forçado com nossos avôs e avós. O contato forçado foi feito através de mentiras, violência e ameaças de morte.”

Sarah Shenker, da Survival International, o movimento global pelos direitos dos povos indígenas, disse hoje: “Colocar um missionário evangélico no comando do Departamento de Índios Isolados da FUNAI é como colocar uma raposa no galinheiro. É uma agressão, uma declaração de que eles querem entrar em contato com povos indígenas isolados à força, o que os destruirá. Juntamente com a recente proposta do presidente Bolsonaro de abrir terras indígenas para mineração e exploração, este é um plano genocida para a destruição total dos povos mais vulneráveis do planeta cuja sobrevivência está agora em risco. Nós resistiremos com todo o nosso poder, junto com nossos amigos indígenas do Brasil.”
Os indígenas isolados são os povos mais vulneráveis do planeta. ©G Miranda/ FUNAI/ Survival
A Missão Novas Tribos é conhecida em todo o mundo por suas tentativas de forçar o contato e evangelizar povos indígenas isolados. É uma das organizações missionárias mais extremistas, cujas missões no Paraguai levaram a várias mortes durante as décadas de 1970 e 1980.

22 de jan. de 2020

DOCUMENTO FINAL


Povo Apinajé realiza na aldeia São José, a 10ª Assembleia Geral da Associação Pempxà

Na Escola Mãtyk participantes da 10ª Assembleia Geral da Pempxà. (foto: Oscar de Sousa. F. Apinagé. Jan. 2020)

Nós caciques, conselheiros, jovens, mulheres, estudantes, anciãos e crianças do povo Apinajé, somando mais de 100 lideranças vindos de 46 aldeias, estivemos reunidos na 10ª Assembleia Geral da Associação União das Aldeias Apinajé-Pempxà, realizada na aldeia São José na zona rural do município de Tocantinópolis, no Norte de Tocantins, no período de 17 a 22 de janeiro de 2020.


Durante os 5 dias debatemos as questões internas de nosso povo e tratamos das políticas públicas, saúde, territorialidade e o Programa Básico Ambiental-PBA Timbira. Ainda analisamos a conjuntura política do pais; especialmente as propostas e Projetos do governo Bolsonaro de liberar as terras indígenas para arrendamentos, mineração e agronegócio.


Avaliamos como extremamente grave e perigosa a intenção e plano do governo de abrir as terras indígenas para exploração de empresas; agronegócio, mineração, arrendamentos, madeireiras e outras. Entendemos como uma tentativa de prejudicar o Meio Ambiente, a vida e cultura dos povos indígenas em benefício dos ricos empresários e ruralistas, inimigos históricos das etnias indígenas brasileiras.

Sabemos que as referidas proposta do governo contrariam e entram em conflito com Tratados e Acordos Internacionais ratificados pelo Brasil, como a Convenção 169 da OIT e a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas. As propostas do atual governo também agridem e ferem a própria Constituição Federal em seus Artigos 231 e 232.

Observamos e denunciamos a explosão da violência nesse primeiro ano do governo, especialmente na região Norte do Brasil, fatos que tem resultado em assassinatos de lideranças indígenas no Maranhão, Pará e Amazonas. Esses atentados que tem tirado a vida de jovens cidadãos e lideranças indígenas são inaceitáveis; mancham a imagem do país perante a comunidade internacional e envergonham o conjunto da sociedade brasileira. Assim o Brasil está sendo considerado um dos países mais violento do mundo, comparado a um país em guerra civil declarada.

É de conhecimento público da sociedade que as narrativas, discursos de ódio e declarações do presidente Bolsonaro incentivam e impulsiona essa onda de invasões de terras indígenas em todo o país. Ainda é notório que essas agressões, provocações e incitações para o confronto são combustível para deflagração de mais conflitos e violências em áreas indígenas disputadas com fazendeiros e/ou ocupadas por invasores.

Fatos graves e crimes que estão acontecendo sob as vistas e conhecimento das autoridades do STF, PGR, MJ e Congresso Nacional. Exigimos providencias das autoridades brasileiras pra impedir mais violências e massacres que estão vitimando as lideranças e comunidades indígenas país a fora?  É fato evidente que o sucateamento intencional da FUNAI e do IBAMA, a falta de demarcação e regularização de terras indígenas e quilombolas, a paralisação da reforma agraria e outros retrocessos e omissões desse governo são as causas dessas violações socioambientais e crimes perpetrados na forma de grilagem de terras, invasões de madeireiras, garimpeiros e sistemática matanças institucionalizada e legalizada.
Plenária da 10ª Assembleia Geral da Pempxà na Escola Mãtyk. (foto: Antonio Veríssimo.Jan. 2020)

Por essas razões nossas Ações por regularização, segurança e garantia de nossos territórios e pela proteção do Meio Ambiente continuarão sendo questões de honra para nossos povos e comunidades. Sempre estaremos atentos, firmes, unidos e articulados nessa luta em defesa do Bioma Cerrado e da Amazônia. Somos conscientes de nossos direitos e deveres, e seguiremos unidos e lutando, agindo e atuando pela Paz e o Bem Viver em nossas aldeias; na certeza que nossas gerações futuras continuarão essa luta.

Reafirmamos que somos contra qualquer proposta; medidas ou leis que visem liberar e abrir nossos territórios para arredamentos, mineração, madeireiras e grilagem. Pedimos aos governos, políticos e empresários que respeitem as leis, a CF e os Tratados e Acordos assinados e ratificados pelo Brasil. Chega de violações, invasões e perseguições contra nossas lideranças. Respeitem nossos territórios, nossos povos e comunidades.

Aldeia São José, 22 de janeiro de 2020

Associação União das Aldeias Apinajé-Pempxà

21 de jan. de 2020

MANIFESTO INDÍGENA

Raoni e 45 povos indígenas lançam manifesto pela vida
“Vou continuar até quando meu corpo resistir. Estamos unidos para defender o povo e a terra”, declarou Raoni, em entrevista à Amazônia Real

“Vou continuar até quando meu corpo resistir. Estamos unidos para defender o povo e a terra”, declarou Raoni, em entrevista à Amazônia Real. Crédito da foto: Kamikia Kisedje/Cobertura Colaborativa

*POR JULIANA ARINI, DA AGÊNCIA AMAZÔNIA REAL

Por quatro dias, a aldeia Piaraçu, na Terra Indígena Capoto Jarina (MT), tornou-se o centro do mundo para 45 povos indígenas. Cerca de 600 lideranças indígenas protagonizaram um evento inédito em todo o país, o Encontro dos Povos Mebengokrê. No final do encontro, após quatro dias e muitos debates, os povos indígenas deram um exemplo a todo Brasil durante a construção do documento “Manifesto do Piaraçu das lideranças indígenas e caciques do Brasil”.

O encontro foi idealizado pelo líder Kayapó Raoni, ou Raoni Metukire, em seu idioma materno, que mesmo com quase noventa anos, insiste em convencer os homens a repensarem a ocupação do planeta. “Não vou desistir, vou continuar até quando o meu corpo resistir. Se o homem branco insistir em cortar floresta, fazer barragem em rio, garimpo e destruir tudo, vou continuar aqui, lutando”, diz ele, durante entrevista exclusiva à agência Amazônia Real. Raoni responde às indagações da reportagem com uma resolução que por trás de sua pintura tradicional camufla o peso da idade.

Os olhos lacrimejam, não há mais a agilidade do guerreiro alto e esguio que começou a lutar pelo povo Kayapó nos anos de 1970, mas a sua determinação causa espanto. O líder permaneceu até o último momento de votação do documento, que envolveu discussões sobre os direitos das mulheres, o respeito aos jovens e, principalmente, como os povos indígenas vão enfrentar um grande desafio: as políticas anti-indígenas do atual governo brasileiro.

Os povos da floresta representados pela filha do líder seringueiro e ambientalista Chico Mendes (1944-1988), Angela Mendes, que atua na coordenação do Comitê Chico Mendes, também participaram das discussões do documento.

“Desde o ano passado percebemos que precisávamos nos unir, pois os tempos atuais pedem que estejamos todos juntos. Temos um governo literalmente fascista”, afirmou Angela, muito emocionada, após reencenar um momento protagonizado por seu o pai nos anos de 1980 ao se reunir com povos indígenas para firmar uma aliança dos Povos da Floresta.

O encontro na terra indígena Kayapó foi um sucesso. Eram esperadas 450 pessoas, mas o evento reuniu 600 participantes. Alguns convidados – e mais de 200 visitantes extras, bem recebidos -, viajaram por até cinco dias, dormiram em barracas, redes e em alojamentos improvisados para atender o chamado de Raoni. A grande maioria das pessoas era indígenas, somados a jornalistas nacionais e internacionais, e amigos de longa data do cacique. O clima era de alegria, com os representantes de 45 povos vestidos com as cores de suas culturas originais.

A reunião final, no centro da aldeia, com todas as lideranças e seus representantes que participaram da luta pela inclusão dos direitos indígenas na Constituição Federal de 1988, foi um dos momentos mais emocionantes.

As discussões do evento apontaram o governo do presidente Jair Bolsonaro como um dos principais inimigos dos povos indígenas hoje. “Queríamos que a Funai (Fundação Nacional do Índio) voltasse aos bons tempos. Estivesse fortalecida e com estrutura para ajudar os povos indígenas como nos tempos de Olímpio Serra, Sidney Possuelo, Claudio Romero e os outros presidentes que realmente pensavam nos povos indígenas”, conta Megaron Txucarramãe, tradutor, sobrinho e cotado para ser um dos possíveis sucessores de Raoni.

Participantes do encontro mandaram um recado ao mundo: “somos a cura da terra”. Crédito da foto: Todd Southgate/Cobertura Colaborativa
O retorno ao Xingu.

Em sua casa, Megaron explicou à reportagem da Amazônia Real como a trajetória de Raoni forjou o líder atual. “Crescemos no Xingu. O povo Kayapó fez parte da diáspora dos povos que perderam o seu território com a abertura das estradas que cortaram a Amazônia a partir da década de 1950. Fomos levados para lá e por lá ficamos um tempo, até que decidimos voltar aqui para às margens do Xingu”, diz.

Raoni nasceu na aldeia Krajmopyjakare, hoje chamada Kapôt – filho do líder Umoro, uma grande liderança de seu povo. Apesar de só conhecer o “homem branco” em 1954, seu povo já sofria há décadas com os ataques.

“Não gostei quando conheci o homem branco. Tive medo, minha avó, de quem herdei o meu nome, sempre contava das histórias de ataques e mortes. Eles (brancos) no encurralaram aqui. Antes nosso povo andava por tudo. Goiás, Tocantins, até beira do Rio de Janeiro era nosso território de andar e migrar. Agora só conseguimos mudar um pouco aqui em nossa terra”, conta Tuíra Kayapó, prima consanguínea, mas ao mesmo tempo neta de Raoni, segundo a estrutura de parentesco dos Kayapó.

O evento na Terra Indígena Capoto Jarina foi marcado de simbolismo. Além de um documento conciso, o encontro promoveu o diálogo entre os povos de todas as regiões do país.

“Cresci com Raoni no Xingu, e vou estar sempre ao lado dele. Nossa luta é igual, pelo território e cultura do povo indígena”, explica Afukaka Kuikuro, um dos grandes líderes do Parque Nacional do Xingu, uma das maiores terras indígenas do país “Precisamos nos unir não só para defender território, mas para cuidar que os jovens tenham orgulho de ser indígena e veja futuro dentro de nossa cultura”, conclui o líder xinguano.

O encontro também resgatou a visibilidade de lideranças Kaypó históricas. É o caso de Paulinho Paikan, voz atuante entre seu povo no contexto político. “Não vou me calar quando for para defender a natureza. Esse é o meu direito a vida e as ameaças cresceram muito”, disse ele à Amazônia Real.

“Pensei muito sobre isso tudo que tem nos cercado. Cheguei à conclusão que a soja é a ilusão do dinheiro. A dependência do dinheiro é algo que não tem fim, não se esgota; se entrarmos nesse caminho vamos nos devorar, não terá fim”, explicou Paulinho Paiakan.

Lideranças indígenas de outros povos do Brasil foram convidadas ao encontro. Crédito da foto: Todd Southgate/Cobertura Colaborativa

Ameaças vizinhas

Capoto Jarina é um exemplo dos novos tempos entre os Kayapó. A terra indígena é cortada por uma estrada por onde trafegam inúmeras carretas de soja e gado. A estrada é o marco físico de dois territórios indígenas, o mundo Kayapó e o Parque Nacional do Xingu, mas em ambos os lados é possível perceber o quanto a floresta já sucumbiu ao corte de madeira. Uma franja de floresta rala e cercada do “mato-bravo”, trepadeira espinhosa também conhecida como “juquira”, toma conta do horizonte em ambos os lados.

No passado, conforme lembra Márcio Santilli, sócio-fundador do Instituto Socioambiental (ISA), os próprios Kayapó chegaram a se envolver com corte de madeira e com garimpo, atividade que causava divisão entre eles. Santilli é reconhecido por sua atuação no indigenismo brasileiro, e foi presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) de 1995 a 1996.

“Por um tempo, os Kayapó estiveram envolvidos com o corte de madeira e garimpo, ainda nos anos de 1990. Eu me desentendi com muitas lideranças daqui para tentar mudar o pensamento deles. Mas Raoni nunca apoiou essa conduta e sua postura foi fundamental para que passassem a evitar o assédio do homem branco sobre as suas riquezas”, disse Marcio Santilli, em declaração à Amazônia Real.

No Encontro na aldeia Piaraçu, Márcio Santilli contribuiu repassando informações aos indígenas sobre as atuais propostas do governo federal que envolvem o arrendamento de terras indígenas para não-indígenas e a regulamentação da mineração, na qual um dos pontos mais controversos é a proposta do governo de não dar poder de veto aos povos indígenas.

A formação de jovens lideranças também se mostrou um tema crucial para o futuro. As filhas de Paulinho Paiakan são exemplos desse novo modo de vida indígena “Meu pai lutou muito para estudarmos, chegou a se desentender com os familiares, mas nós conseguimos. Minhas irmãs são enfermeiras, eu sou advogada e todas nós estudamos inglês. Sempre participamos do movimento indígena”, explica Oé Paiakan Kayapó, que é vista como uma liderança pelo próprio Raoni.

“Precisamos dos jovens para manter a nossa luta. Eles são fundamentais”, afirma Aritana Yalapiti, um dos caciques xinguano presente na reunião. “Raoni desde muito cedo sempre foi esse líder, os jovens precisam buscar essa postura”, afirma.


Novos líderes

A delicada questão da sucessão de cacique Kayapó, é um tema pouco discutido. Nas terras indígenas poucos se habilitam a se candidatarem ou lutar pelo reconhecimento necessário para tornarem-se uma liderança.

Pai de dez filhos, Raoni perdeu em dois acidentes os herdeiros naturais. Seu primogênito morreu em um acidente pouco esclarecido nos anos de 1990, quando seu povo ainda vivia no Parque Nacional do Xingu. Após o incidente, Raoni migrou para dentro do território Kayapó, abandonando de vez o local para onde foram levados pelos sertanistas Orlando, Claudio e Leonardo Villas-Boas, à época do contato, em 1954.

A aldeia de Raoni é tão reservada quanto a possibilidade de manter um contato mais próximo com ele. Apesar de ser uma figura pública, Raoni é quase sempre esquivo ao assédio de quem o admira. A aldeia isolada é uma proteção ao cacique. O único caminho é o rio Xingu em uma viagem de mais de duas horas. Foi para lá que ele convidou o seu sobrinho Bepkmro Metuktire e atual tradutor para morar.

“Ele já expôs o seu desejo de me transmitir a liderança e pediu para eu estudar e me preparar”, explica Bepkamro, ou Ta-ú como é conhecido
Bepkamro é vice-presidente do Instituto Raoni, a associação que o povo Kayapó utiliza para captar recursos para projetos de economia sustentável, como atividades agroflorestais nas aldeias e para fazer eventos como os dessa semana. O cargo é outro símbolo de proximidade com Raoni. Antes dele, o segundo filho do cacique, Tedje Metukitire, falecido em um acidente de carro em 2004, ocupava o cargo.

Mas a sucessão do cacique para as lutas futuras também envolverá uma figura feminina, com já anunciou o próprio Raoni, quebrando a tradição de transmissão da chefia apenas aos homens. O nome dessa figura segue sem ser definido.
Hoje a mulher mais respeitada entre os Kayapó é Tuíra. Para ela a figura de Raoni foi fundamental para tornar-se uma líder. “Desde jovem ele sempre vem lutando, e me vez ver o sonho da luta e segui-lo, mas a liderança é dos jovens. Daqui em diante nosso futuro está com as jovens mulheres”, explicou.

Os rituais e apresentações de danças tradicionais fizeram parte da programação do encontro. Crédito da foto: Todd Southgate/Cobertura Colaborativa
Militância pacífica

Enquanto não há ainda a previsão de um sucessor, o cacique viaja para repetir a mesma mensagem em inúmeras entrevistas e discursos. “Enquanto o indígena tiver ameaçado, eu vou pedir a paz”, diz Raoni.

O início de sua cruzada envolveu encontro com vários presidentes brasileiros e estrangeiros. O primeiro deles foi Juscelino Kubitschek, nos anos 1950, e o ultimo o presidente francês Emanuel Macron, em 2019. Raoni apenas não se encontrou ainda com o atual presidente brasileiro Jair Bolsonaro, com quem vive uma história mútua de aversão.

O discurso anti-indígena do presidente foi uma das razões do sucesso do encontro na Aldeia Piaraçu. O documento pode ser considerado símbolo da resistência indígena e dos povos tradicionais contra velhos inimigos dessas nações, como na abertura de novas áreas de floresta, a mineração e a disputa pela terra “Essa reunião não veio para fazermos guerra. Estamos unidos para defender o povo e a terra. Quero que todo mundo respeite os indígenas e nos deixe viver paz”, concluiu Raoni, que na semana que vem estará em Oxford, no Reino Unido, em um seminário sobre meio ambiente e direitos sociais.

Em 2019, Raoni foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz. Embora não tenha sido escolhido, seu nome permanece com a indicação para 2020.


Fonte: Por Agência Amazônia Real
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10 de jan. de 2020

VIOLÊNCIA

Nota do Cimi: inquérito da PF sobre assassinato de Paulino Guajajara reforça ciclo de impunidade
Ao reduzir o caso a um lamentável episódio de troca de tiros, investigação desconsidera uma longa história de violência e violações contra os Guajajara e seu território
Paulo Paulino Guajajara, Guardião da Floresta assassinado na Terra Indígena Arariboia. Foto: Sarah Shenker/Survival International
Paulo Paulino Guajajara, Guardião da Floresta assassinado na Terra Indígena Arariboia. Foto: Sarah Shenker/Survival International
“Se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão!” (Lc, 19-40)
O Conselho Indigenista Missionário – Cimi vem a público repudiar a conclusão da Polícia Federal no inquérito cuja finalidade foi investigar a execução do indígena Paulo Paulino Guajajara e o ataque ao indígena Laércio Sousa Silva, baleado no braço, conforme divulgada pela imprensa. O fato ocorreu no dia 1º de novembro de 2019, no interior da Terra Indígena (TI) Araribóia, nas proximidades da aldeia Lagoa Comprida, a 86 km do município de Amarante do Maranhão.
Conforme o relato feito pelo sobrevivente Laércio, os indígenas foram vítimas de uma emboscada enquanto caçavam dentro do seu território. Segundo ele, quando pararam para tomar água, ouviram barulho no mato e logo em seguida os tiros. Paulo Paulino tombou no local após receber um tiro no ouvido, não havendo tempo para se defenderem. Laércio se protegeu atrás de uma árvore, sendo alvejado nas costas e no braço direito, conseguindo escapar com o quadriciclo que estavam usando na caçada a porcos do mato. Laércio assegurou que não avistou nenhum corpo de não indígena caído no local.
É de conhecimento geral que os Guajajara da TI Arariboia, bem como outros povos indígenas, atuam como Guardiões da Floresta nas TIs Alto Turiaçu, Caru, Governador, Krikati e Pindaré, realizam ações de proteção do seu território e são reconhecidos pela Funai e pelo Ibama para realizar essas ações, uma vez que o Estado, que deveria proteger e fiscalizar seus territórios, não o faz. É sabido também que, por conta da atuação dos Guardiões, os indígenas têm recebido ameaças, e em 2016, quatro indígenas Guajajara foram assassinados dentro da Terra Indígena Arariboia. Dois deles eram Guardiões e nenhum desses casos foi investigado pela Polícia Federal.
Foi também neste contexto que, em 2007, Tomé Guajajara, liderança de 60 anos, foi assassinado por madeireiros na aldeia Lagoa Comprida, no interior da TI Arariboia e, em 2008, Maria dos Anjos Guajajara, de apenas sete anos de idade, foi assassinada enquanto assistia televisão em sua casa, na aldeia Anajá, localizada no mesmo território. Em ambos os casos, as aldeias foram invadidas por madeireiros em represália às ações de fiscalização e denúncia dos indígenas.
Nos últimos vinte anos, o Cimi registrou o assassinato de pelo menos 47 indígenas do povo Guajajara no Maranhão. Destes, 18 eram da TI Arariboia.
Embora a situação nas terras do povo Guajajara tenha se agravado recentemente, o ambiente de violência e insegurança também afeta os demais povos indígenas do estado do Maranhão, sejam aqueles que vivem em terras demarcadas, como a TI Alto Turiaçu, que viu Euzébio Ka’apor ser assassinado em 2015 após ações autônomas de fiscalização e denúncia contra madeireiros, sejam os que ainda lutam pela regularização de seus territórios tradicionais, como o povo Akroá Gamella, vítima de um atentado que deixou mais de vinte feridos em abril de 2017.
Questionamos se esse contexto foi levado em consideração pela Polícia Federal ao concluir que “foi possível afastar as hipóteses relacionadas a conflitos étnicos ou mesmo por emboscada de madeireiros a indígenas, tudo convergindo para a conclusão de que o lamentável episódio se originou da troca de tiros motivada pela posse de uma das motocicletas utilizadas pelos não indígenas”, segundo passagem de uma nota da PF divulgada pelo site do jornal O Globo.
O que faziam os madeireiros no território indígena, fortemente armados, numa área regularizada e de usufruto exclusivo dos povos indígenas?
Historicamente há conflito étnico por conta da retirada ilegal de recursos naturais de dentro do território, e as vítimas são sempre os indígenas. Se não foi emboscada, tampouco foi confronto. O que faziam os madeireiros no território indígena, fortemente armados, numa área regularizada e de usufruto exclusivo dos povos indígenas?
A Polícia Federal, ao reduzir o assassinato de Paulino Guajajara a um lamentável episódio de troca de tiros, desconsidera uma história de mais de 40 anos de conflitos com madeireiros nesse território, ao longo dos quais os indígenas vêm sendo assassinados e tendo seus territórios destruídos sem que nenhum assassino seja punido.
Ao desprezar o contexto de violência e de violações aos direitos e territórios indígenas, mesmo quando se trata de terras indígenas já demarcadas, a Polícia Federal demonstra sua opção política pela criminalização dos povos e de seus processos de luta por direito e por território, naturaliza o racismo institucionalizado pelo Estado e acaba por reforçar, com esta posição, as políticas de extermínio dos povos originários.
Exigimos uma investigação que considere as identidades, os direitos, os indícios e as vozes dos próprios povos, e que acabe com a impunidade dos que matam e mandam matar os povos indígenas e suas lideranças. Repudiamos ainda a atuação de parte da mídia que, ao reproduzir os argumentos falaciosos, reforça a criminalização e a posição desse governo e desse Estado etnocida.

Conselho Indigenista Missionário – Cimi
8 de janeiro de 2020
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22 de dez. de 2019

AGROECOLOGIA


Durante o II Encontro e Troca de Sementes lideranças Apinajé, debateram aspectos do passado, do presente e o futuro das sementes tradicionais para a produção orgânica e a agroecologia


O II Encontro aconteceu na comunidade (indígena) Aldeinha, na zona rural do município de Tocantinópolis. Este II Encontro e Troca de Sementes foi realizado com apoio das Prefeituras de Maurilândia, São Bento do Tocantins, FUNAI e Associação Pempxà. Ao menos 60 lideranças indígenas participaram desse Encontro, que contou ainda com participação de alunos e Professores da UFT Campus de Tocantinópolis, além da FUNAI/CTL, representada por João Batista da Silva Filho e Patrícia Moojen.

Os líderes debateram a importância das sementes crioulas para plantio e manutenção das roças tradicionais. Especialmente as mulheres Apinajé manifestaram muita preocupação com as perdas das sementes tradicionais que eram usadas antigamente pelos avós. Apesar dessas perdas, “ainda existem algumas variedades que guardamos e conservamos de geração em geração” afirmou Valdeci Dias Apinajé, líder da aldeia Cipozal.

Foram apresentadas pelos participantes diversas espécies e variedades de sementes de feijão, abobora, quiabo, maxixe, melancia, milho, fava, arroz, gergelim, caju e outras. As lideranças reconheceram que nesse período muitas sementes já foram plantadas, mesmo assim trouxeram algumas sementes para fazer a troca com outros parentes. Creusa Fernandes Apinajé, da aldeia Irepxi, comentou sobre a importância desse Encontro para melhorar, fortalecer e diversificar nossas roças: “na minha roça sempre planto diversas variedades de inhames, batatas, mandiocas, macaxeira, e quero conseguir outras espécies”.

Os participantes debateram o monopólio das grandes empresas que se apropriaram e passaram a dominar e controlar o mercado de sementes, nos obrigando compra sementes todos os anos, pois essas sementes adquiridas no mercado não servem pra plantar no ano seguinte. “Tudo é pensado pra escravizar os pequenos, e deixar nos cada vez mais dependentes do mercado de sementes transgênicas, dos adubos químicos e agrotóxicos”. Afirmou Antonio Veríssimo, líder (representante) da aldeia Cocalinho.

Os líderes elogiaram e comentaram a importância da ‘Casa de Sementes’ que está sendo implantada na aldeia Cocalinho com a finalidade de fazer coleta, seleção, guarda e conservação das sementes tradicionais (crioulas). As sementes de espécies nativas do Cerrado também serão coletadas, catalogadas e conservadas nesta ‘Casa de Sementes’ que está sendo construída na aldeia Cocalinho. A conclusão do Projeto está previsto para final de janeiro de 2020.

Os participantes avaliaram como positivo e afirmativo esses Encontros para conversas, troca de sementes e experiências. Doravante outros Encontros como esse serão organizados e realizados nas aldeias pra debater a situação e guarda das sementes, produção de orgânicos e a agroecologia. Os lideranças sugeriram para os próximos Encontros que sejam convidados representantes de povos indígenas, quilombolas e camponeses da região. Ainda destacaram a importância de ouvir as histórias, (mitos) e narrativas sobre as sementes contadas pelos anciãos e mais idosos do povo Apinajé.  

Terra Indígena Apinajé, 22 de dezembro de 2019

Associação União das Aldeias Apinajé-Pempxà 

9 de dez. de 2019

VIOLÊNCIA


Em novo ataque a tiros, dois caciques Guajajara são mortos no Maranhão

No ataque morreram dois caciques: Firmino Prexede Guajajara, de 45 anos, atingido por quatro disparos, e Raimundo Benício Guajajara, de 38 anos
A imagem acima mostra o corpo do cacique Firmino Prexede Guajajara, de 45 anos, da aldeia Silvino. Crédito da foto: Mídia Índia
POR ELAÍZE FARIAS, DA AGÊNCIA AMAZÔNIA REAL
Manaus (AM) – Um grupo de indígenas do povo Guajajara foi atacado a tiros de revólver, por volta das 12h40 (horário de Brasília) deste sábado (07), enquanto percorria em motocicletas um trecho da rodovia BR-226 próximo à aldeia El Betel, na Terra Indígena Cana Brava, no município de Jenipapo dos Vieiras, no Maranhão. 
No ataque morreram dois caciques: Firmino Prexede Guajajara, de 45 anos, da aldeia Silvino (TI Cana Brava), atingido por quatro disparos, e Raimundo Benício Guajajara, de 38 anos, da aldeia Decente, Terra Indígena Lagoa Comprida, segundo informou a liderança Magno Guajajara à agência Amazônia Real. Dois indígenas ficaram feridos.
Conforme informações do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) no município de Barra do Corda, os feridos são Neucy Cabral Vieira, da aldeia Nova Vitoriano, e Nico Alfredo, da aldeia Mussun, da TI Cana Brava. Eles estão sendo atendidos na Unidade de Pronto Atendimento de Barra do Corda.
Neucy Vieira tem perfuração na perna e foi submetido à sutura e deve ter alta neste domingo. Nico Alfredo tem perfuração na região do glúteo, com suspeita de hemorragia interna, e deve ser transferido para o Hospital Socorrão, no município de Presidente Dutra. Não há informações sobre quem são os criminosos. Segundo as testemunhas, os atiradores estavam dentro de um veículo Gol branco quando começaram a disparar contra os indígenas.
Após o ataque, os indígenas Guajajara iniciaram um protesto na rodovia BR-226 no início da tarde deste sábado, impedindo o acesso ​de veículos na rodovia. “O clima está tenso aqui”, revelou Magno Guajajara.
Este é o segundo ataque a tiros contra indígenas Guajajara em menos de dois meses. No dia 1º de novembro, o guardião da floresta Paulo Paulino Guajajara, 26 anos, foi assassinado em um ataque de madeireiros na Terra Indígena Arariboia. O indígena Laércio Guajajara ficou ferido. Ele e mais dois Guardiões da Floresta ingressaram no Programa de Proteção à Testemunha devido às ameaças que sofrem no território. Os Guardiões da Floresta são defensores e atuam monitorando e combatendo a exploração ilegal de madeira nas terras indígenas do Maranhão.
No ataque de novembro também morreu, segundo a Polícia Federal, durante um confronto com os indígenas, o madeireiro Márcio Greyck Pereira. As circunstâncias dos crimes estão sendo investigadas pela polícia.
Os assassinatos de indígenas Guajajara acontecem no momento em que a coordenadora-executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), Sonia Guajajara, está participando de protestos internacionais denunciando a situação de ausência de poder público e invasão para exploração de madeira nos territórios indígenas brasileiros.
“Mais dois parentes Guajajaras foram assassinados hoje no Maranhão. Basta de vítimas, não queremos mártires, queremos vozes vivas! Toda solidariedade aos parentes da terra indígena Cana Brava”, declarou Sonia Guajajara, em sua conta no Twitter nesta tarde.
Em sua conta no Twitter, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, se manifestou sobre o ataque e se solidarizou com as vítimas e os familiares. Ele disse que a Polícia Federal “já enviou uma equipe ao local e irá investigar o crime e a sua motivação”. Ele disse também vai “avaliar a viabilidade do envio de equipe da Força Nacional à região”.
“Lamento o atentado, ocorrido hoje no Maranhão, que terminou com dois índios guajajaras mortos e outros feridos. Assim que soube dos tiros, a Funai foi até a aldeia tomar providências, junto com as autoridades do governo do Maranhão”, afirmou no Twitter.
O indígena Nelsi Olímpio Guajajara levou um tiro na perna e escapou com vida. Crédito da foto: Mídia Índia
A Secretaria do Estado de Direitos Humanos e Participação Popular do Maranhão divulgou nota dizendo que está acompanhando o caso junto à Secretaria de Estado de Segurança Pública e representantes da Funai.
Caciques estavam em reunião
Segundo Magno Guajajara, os indígenas foram atacados quando voltavam de uma reunião na aldeia Coquinho​, onde se encontraram com diretores da Eletronorte Energia.
Na reunião, da qual participaram 60 caciques e lideranças Guajajara, os indígenas discutiram temas sobre as compensações de impactos ambientais de obras de linhas de transmissão que existe dentro território, segundo o coordenador da Funai (Fundação Nacional do Índio) no Maranhão, Guaraci Mendes.
“Estávamos tratando do assunto da Eletronorte. Ao finalizar a reunião​, os indígenas voltaram para casa de moto. Numa descida ​na ladeira, os parentes foram abordados e alvejados. Simplesmente atiraram nos parentes. No trajeto, baixaram o vidro e olharam​ para identificar se​ eram indígenas. Aceleraram e atiraram. Foi um tiro fatal. Ninguém sabe por que ocorreram esses disparos, essa violência, essa manifestação de ódio”, afirmou Magno Guajajara à Amazônia Real.
Guaraci Mendes contou à reportagem que enviou equipes para o local e comunicou o caso à Polícia Federal no Maranhão, que já está em campo para as investigações. Os corpos serão periciados pelo Instituto Médico Legal (IML) antes do enterro dos caciques. Mendes também relatou como soube do atentado.
“Meu colega [da Funai] foi participar da reunião, mas depois vi que havia esquecido um documento. Pedi para o Magno entregar. Em dez minutos que ele sai, o Magno me liga: ‘Guaraci, acabaram de matar dois parentes. Tem dois baleados. A gente viu​ o carro, ele abriu fogo e fugiu’. Já mandamos as equipes e procuramos a polícia e agora estamos aguardando mais informações”, disse Mendes.
O coordenador da Funai destacou que “apenas as principais lideranças Guajajara estavam reunidas para tratar dos recursos da compensação com a Eletronorte” e este fato lhe chamou atenção.
“Era toda a cúpula, caciques e lideranças, da Terra Indígena Cana Brava. Parece que foi ação planejada”, afirmou Mendes.
(Colaboraram Izabel Santos, Kátia Brasil, Alberto César Araújo e Elvira Eliza França)
Fonte: Amazônia Real
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