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10 de abr. de 2023

GOVERNO LULA

Lula completa 100 dias de governo cumprindo promessas de Campanha; nomeando indígenas para compor seu governo e "ajudar reconstruir o Brasil”

Ministra Sonia Guajajara reunida com lideranças dos Povos Timbira do Maranhão e Tocantins (foto: Wyty Cate. Março de 2023)

A eleição de Luís Inácio Lula da Silva para o cargo de Presidente, representa uma vitória política e um fato histórico relevante para maioria de brasileiros e brasileiras que escolheram pelo voto livre e democrático pela terceira vez esse importante líder político da esquerda no Brasil e América Latina. Durante a Campanha Eleitoral, os líderes das classes sociais menos favorecidas, representando a maioria dos brasileiros manifestaram pela volta de Lula da Silva para governar o Brasil.

A exemplos do 1º e 2º mandatos, em 2022 Lula foi eleito prometendo trabalhar e governar para os mais pobres e os menos favorecidos. O Presidente eleito também vem cumprindo promessas de campanha e logo nos primeiros dias de governo tratou de chamar as lideranças indígenas e representantes de movimentos sociais para compor seu governo em áreas da saúde, terra, meio ambiente e cultura. Especificamente na questão indígena, logo no início do mandato Lula convidou a líder, ativista Sonia Bone Guajajara para comandar o Ministério dos Povos Originários, nova pasta criada por ele cumprindo promessas de campanha. A ex-Deputada Federal-REDE, ativista e Advogada Joenia Carvalho Wapichana foi nomeada para gestão da Fundação Nacional dos Povos Indígenas-FUNAI. E para a Secretaria Especial da Saúde Indígena- SESAI, o governo designou o Advogado Ricardo Weibe Tapeba.

As lideranças indígenas convidadas pelo governo aceitaram o desafio e estão no governo com apoio da COIAB, ARPINSUL, APOINME, COAPIMA e outras organizações indígenas regionais. Desde a posse de Lula que as organizações indígenas do Estado do Tocantins também se articularam e se mobilizaram para indicações de líderes indígenas para ocupar cargos no DSEI-TO e na Fundação Nacional dos Povos Indígenas-FUNAI. Após conversas, articulações e entendimentos internos entre Articulação dos Povos Indígenas de Tocantins-ArPIT e o Instituto Indígena do Tocantins-IDTINS, essas duas organizações indígenas do Estado, encaminharam Ofícios indicando os nomes de Haratumã Warassi Maurreri Javaé para exercer o cargo de Coordenador Distrital de Saúde Indígena no DSEI-TO e Pedro Paulo Da Silva Xerente para o cargo de Coordenador da FUNAI/CR Araguaia/Tocantins em Palmas.


Haratumã W. Maurerri Javaé, Coordenador Distrital do DSEI-TO. (foto: internet 2023)

No dia 20/03/2023 foi publicado no Diário Oficial da União-DOU a Portaria Nº 413 do MS de 17 de março de 2023 nomeando Haratumã Warassi Maurreri Javaé para o cargo de Coordenador Distrital de Saúde Indígena no DSEI-TO em Palmas. A Portaria do MPI Nº 65 de 03 de abril 2023 e publicado no Diário Oficial da União-DOU em 04/04/2023 nomeou o indígena Pedro Paulo da Silva Xerente para o cargo de Coordenador da FUNAI/CR Araguaia/Tocantins. Diante desses avanços das lideranças ocupando espaços nos órgãos de governo federal e estadual, todos indígenas estamos alegres e felizes com essas conquistas, entretanto também estamos cientes que os trabalhos estão apenas começando e os novos gestores enfrentarão enormes desafios e dificuldades. É de domínio público a situação atual de precarização da SESAI, o sucateamento da FUNAI e o intencional desmonte do IBAMA, ocorridos na gestão do governo Bolsonaro na qual todos esses órgãos sofreram gigantescos retrocessos e precarização.

ATENÇÃO À SAÚDE INDÍGENA

No caso da Atenção à Saúde Indígena, que é responsabilidade da SESAI nos últimos quatros anos a estrutura de Atenção à Saúde Indígena que atende os quase 13 mil indígenas do Tocantins vem sendo sucateada com a sistemática falta de investimentos do governo passado. No governo de Jair Bolsonaro a estrutura da saúde indígena ficou ainda mais prejudicada e abandonada. No caso do povo Apinajé praticamente não existe saneamento básico na maioria das aldeias. Ao menos 85% dessas comunidades não dispõem de Sistemas de Abastecimento de Água-SAA, em 90% não existem banheiros e esgotamento sanitário. A construção e reforma de Postos de Saúde foram totalmente paralisadas, existem aldeias que estão há dez anos aguardando a construção de Postos de Saúde, cujos Projetos nunca saíram do papel.

As lideranças indígenas do Controle Social reconhecem essas dificuldades da política de atenção à saúde indígena no Estado do Tocantins, mesmo com Lula no governo...“este ano ainda vamos trabalhar com orçamento do governo anterior”, explica Ivan Suzawre Xerente Presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena-CONDISI. A redução de recursos e investimentos de governos passados na saúde indígena agravou ainda mais a situação dos pacientes que sofrem com doenças cardíacas, hipertensão e diabetes. Neste contexto de descaso ouvimos muitas queixas e reclamações dos pacientes denunciando a lentidão e demora pra conseguirem consultas médicas, exames e cirurgias. Lideranças também apontam problemas de sucateamento das viaturas do Polo Base Indígena PBI de Tocantinópolis, a falta de combustíveis e de medicamentos. E os pacientes que conseguem consultas e exames médicos, estão se virando como podem pra comprar remédios do próprio bolso.
Mobilização Apinajé no PBI de Tocantinópolis pela saúde. (Foto: Arquivo Pempxa. Maio de 2022)

Desde 2021 que algumas comunidades Apinajé sofrem com casos de leishmaniose cutânea (ou ferida brava) que ainda vem atingindo muitas pessoas adultas e jovens. Denunciamos essas condições de extrema gravidade nas aldeias Apinajé, acreditamos que a situação nas demais terras indígenas do Tocantins são semelhantes. Em conversas com o presidente do CONDISI-TO Ivan Suzawre Xerente, o mesmo afirmou que está ciente desses problemas que estão ocorrendo não só no povo Apinajé, mas em todas as etnias do Estado, e que a partir de 10 de abril junto com o Coordenador do DSEI-TO irão a Brasília tratar dessas demandas.

AS PERSPECTIVAS PARA FUNAI

O governo Bolsonaro é considerado o pior governo da história para os indígenas, basta ver o que aprontou com a FUNAI, IBAMA e a própria SESAI. A situação da FUNAI nunca foi favorável, mas nesses quatro anos o que já era ruim piorou até o limite. Nessa conjuntura difícil a FUNAI CTL de Tocantinópolis, ficou mais de três anos sem telefone, internet e o fornecimento de combustível comprometido e minguado de tal forma que se alguém precisasse da única camionete para fazer alguma viagem emergencial tinha que abastecer. E essa situação ainda não foi resolvida. Nesse período as invasões do território se multiplicaram, as “portas” ainda estão abertas não existe fiscalização nenhuma para impedir e conter os ilícitos.

As lideranças Apinajé até que tentam proteger o território mas não dispõem de veículos, combustíveis e segurança. A exploração ilegal de madeiras acontecem diariamente à luz do dia. Os exploradores ilegais não tem preocupação nenhuma em se expor, pois sabem que nunca serão punidos ou pelo menos advertidos. Dessa forma os remanescentes de madeiras nobres do território encontram se seriamente ameaçadas e correndo sério risco de serem extintas; seja pela ação do fogo ou pela exploração predatória e ilegal. Diante dessa situação entendemos que A FUNAI e IBAMA precisam urgentemente serem reorganizados e reestruturados para atuarem em parcerias para efetivar fiscalizações, monitoramento e proteção das terras indígenas.
Brigadistas indígenas monitorando incêndios no território Apinajé. (foto: IBAMA. Agosto de 2015)

O governo Federal precisa também retomar as demarcações de terras indígenas no país. Infelizmente no Estado de Tocantins alguns povos indígenas há décadas vivem lutando por demarcação de suas terras. Essa tem sido uma luta desgastante, perigosa e muito arriscada. Nesse contexto de embates, conflitos e disputas por territórios a questão da falta de regularização fundiária das terras indígenas pelo Governo Federal tem sido a principal causa de violência, injustiças e mortes, isso precisa ser urgentemente resolvido pelas autoridades.

CONCLUSSÃO

Entendemos que são conquistas importantes o fato dos indígenas estarem ocupando espaços políticos e administrativos nos órgãos públicos da esfera federal e estadual, mas em todos os casos é necessário a reestruturação desses órgãos para dar condições aos servidores de atuarem e desenvolverem suas funções de maneira adequada, digna e segura. Acreditamos no espirito de Fé, da cooperação e da união entre as Organizações indígenas e indigenistas do Brasil e do Tocantins, que nesse momento precisam se juntar para apoiar essas lideranças recém empossadas na SESAI, FUNAI e Secretaria de Estado dos Povos Originários, assim teremos forças e chances de avançar ainda mais. O Controle Social precisa ser melhor organizado e fortalecido pra acompanhar e fiscalizar a gestão pública. E enquanto cidadãos nunca deixaremos de criticar de forma construtiva possíveis erros e seguiremos sempre cobrando melhorias dos serviços públicos.


Terra Indígena Apinajé, 10 de abril de 2023


Associação União das Aldeias Apinajé-Pempxà

10 de mar. de 2023

FORMAÇÃO

Atividades de Formação de Jovens Guardiãs e Guardiões na Aldeia Prata, território Apinajé, no Norte do Tocantins


Nos meses de janeiro e fevereiro de 2023, a Associação Indígena Apinajé PYKA MÉX realizou diversas atividades visando a formação de jovens Guardiãs e Guardiões Apinajé. Estas atividades ocorreram no âmbito da execução do Projeto “Formação de novas gerações de Guardiãs e Guardiões Apinajé e o monitoramento territorial”, apoiado pelo ISPN.

Cerca de 20 jovens da comunidade da Aldeia Prata e 13 de outras aldeias (entre homens e mulheres, meninos e meninas) participaram de expedições para o reconhecimento dos limites da TI Apinajé, nos entornos da Aldeia Prata e expedições para conhecerem nascentes e cabeceiras de ribeirões dentro do território. Nestas andadas foram guiados e guiadas por anciões e anciãs e lideranças do povo Apinajé e, por meio de conversas com esses mestres e mestras dos saberes tradicionais, puderam aprender mais sobre as histórias de seu povo, de seu território, conheceram plantas medicinais, locais tradicionais de caça, pesca, coleta de frutas e sementes etc. Presenciaram, ainda, violações ao território, como desmatamentos, retirada de cascalho, invasões , usos indevidos da terra etc.

Para além das expedições, rodas de conversa com os anciões, as anciãs da Aldeia Prata e das aldeias convidadas e lideranças do povo Apinajé, nas quais ouviram as histórias de seu povo, da luta pela demarcação, de outras lutas passadas e presentes, ouviram explicações sobre o modo de vida tradicional Apinajé e sua cultura. A presença do cantor Alexandre Apinajé, com suas histórias e cantorias ao longo das caminhadas e durante diversos momentos da atividade, enriqueceram ainda mais essa vivência dos jovens.

Sintetizando todas essas atividades, os jovens participaram, ainda, de Oficinas de elaboração de mapas mentais, com base no que viram e ouviram, qualificando os desenhos dos caminhos com legendas e informações apreendidas naqueles dias de formação. Grupos de jovens eram orientados pelos mais velhos e mais velhas que os ajudavam a qualificar seus desenhos.



Esse conjunto de atividades ocorreram entre os dias 27 de janeiro 24 de fevereiro de 2023 e contou com a parceria do Centro de Trabalho Indigenista (CTI) e a Coordenação Local (CTL) da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) de Tocantinópolis - TO.

Após a expedição, uma roda de conversa com anciãs, anciões e lideranças do povo Apinajé. Na sequência: Joel Dias, cacique da Aldeia Prata e presidente da Pyka Méx, Cleuza Nhíro, da Aldeia Irepxi, “seu” José Ribamar, da Aldeia Aldeinha, o cantor “Alexandre Apinajé” e Oscar Wahnme, da Aldeia Mangal, jovem e importante liderança do povo Apinajé.

A primeira oficina de elaboração de mapas mentais qualificados com as informações vistas ouvidas e vividas durante as andadas por uma parte dos limites da TI, nas proximidades da Aldeia Prata, e a apresentação dos resultados.

Os jovens realizaram Expedições saindo da Aldeia Aldeinha para conhecer as nascentes de córregos e ribeirões que formam o Ribeirão São José e para conhecer onde surge o Ribeirão da Prata, no encontro do São José com o Ribeirão Bacaba, nas proximidades da Aldeia Gôgrire.



Segunda Oficina de produção de mapas mentais e a apresentação dos resultados: desenhos dos grupos sobre as cabeceiras e nascentes que formam o Ribeirão da Prata.

Roda de conversa com as jovens e importantes lideranças Oscar Wahnme, da Aldeia Mangal, e Edmar Krãnkênh Xavito, da Aldeia Patizal. Os dois organizaram expedições para monitorar, juntamente com Guardiões Apinajé mais experientes da Aldeia Prata, os limites e as entradas da TI Apinajé – nestas expedições testemunharam diversos ilícitos e violações no território, sobretudo desmatamentos e retirada ilegal de madeira. Em seguida, alguns dos Guardiões que estiveram nas expedições de monitoramento mostraram fotos dos flagrantes e contaram um pouco sobre a experiência. Em destaque: Marcelino Dias, Vanderlan Apor e Márcio Tepkryt. Estas expedições também foram apoiadas pela Pyka Méx, no âmbito da execução do projeto.


Após a apresentação dos Guardiões, o encerramento das atividades foi feito com falas de lideranças, anciãs e anciões do povo Apinajé que lamentaram o que está ocorrendo na TI Apinajé, mas destacaram a importância de formações como a que estava se encerrando para garantir o fortalecimento da luta e para capacitar as futuras gerações para defenderem seu território, sua cultura, seus direitos. Em destaque Alan Katam Kaàk, vice-presidente da Pyka Méx, “dona” Terezinha Sindor, da Aldeia Aldeinha, Luzimar, também da Aldeia Aldeinha e o fechamento com o cacique Joel Dias.

Segue mais algumas imagens da expedição de reconhecimento dos limites da TI Apinajé nos entornos da Aldeia Prata, passando por setores de roça, locais de antigas propriedades de não indígenas e o povoado do Jenipapo, que ficavam dentro do território Apinajé antes da demarcação em 1985 – a divisa com fazendas, com o povoado Passarinho e a TO 210.




















Imagens: Ricardo Eiji Murakami, acervo Pyka Méx.

Terra Apinajé, Março de 2023





11 de fev. de 2023

YANOMAMI

Nota do Cimi: proteção ao povo Yanomami só será efetiva com desmonte da cadeia do garimpo e apuração dos crimes

A violência contra os povos indígenas não pode ser naturalizada. Impunidade é inaceitável e pode alimentar condições para que violações continuem também em outros territórios

Conselho Indigenista Missionário - Cimi

 

A situação que vive o povo Yanomami dentro de sua terra indígena ganhou uma ampla repercussão nas últimas semanas, dentro e fora do país. A trágica realidade enfrentada pelos indígenas chamou a atenção de boa parte da sociedade brasileira, que manifesta de diversas formas sua indignação, solidariedade e repúdio diante das cenas e informações divulgadas.

Ao mesmo tempo, o novo governo federal começou a tomar uma série de medidas emergenciais, tanto no campo do atendimento à saúde como no da segurança territorial e desintrusão dos garimpeiros de dentro da terra indígena.

É importante destacar que esta situação não foi revelada apenas agora. Organizações indígenas e aliados vêm denunciando e documentando sistematicamente o que estava ocorrendo dentro da Terra Indígena (TI) Yanomami há, pelo menos, cinco anos.

O ponto de inflexão na retomada maciça do garimpo dentro deste território começou a ser constatado ainda em 2017, quando informações davam conta da proximidade de acampamentos de garimpeiros com relação a aldeias do grupo indígena Moxihätëtëa, em situação de isolamento voluntário, na região da Serra da Estrutura.

Ainda em junho de 2018, a Hutukara Associação Yanomami (HAY) já havia denunciado o provável assassinato de dois indígenas isolados Moxihätëtëa por garimpeiros naquela mesma região.

Uma Ação Cível Pública do Ministério Público Federal (MPF) resultou, já em novembro de 2018, numa decisão firme da Justiça Federal, obrigando a União a reestabelecer as Bases de Proteção Etnoambiental desativadas no território Yanomami.

A partir desse momento e até os dias atuais, a situação piorou de forma extraordinária e tudo isso foi amplamente denunciado pelas organizações indígenas e seus aliados, de forma permanente, inclusive com estudos altamente qualificados.

O tema ganhou mais espaço nos meios de comunicação a partir, principalmente, de maio de 2021, quando todo o país assistiu as imagens do tiroteio contra a comunidade Yanomami de Palimiú, no interior da terra indígena, e à série de ataques armados que se seguiu durante os meses seguintes.

Neste período de quatro anos, entre o final de 2018 e de 2022, houve outras decisões judiciais no âmbito do Poder Judiciário brasileiro, incluindo a mais alta instância, o Supremo Tribunal Federal (STF), e também a publicação de uma medida cautelar por parte da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) em maio de 2020, em plena pandemia. Todas estas medidas foram sistematicamente descumpridas e desconsideradas pelo governo federal, presidido por Jair Bolsonaro.

A relação sinérgica entre o aumento do garimpo e a desassistência na saúde criou condições objetivas que comprometem a sobrevivência física e cultural do povo Yanomami. E ambos os vetores tiveram durante quatro anos a digital, explícita e intencional, do governo federal e a cumplicidade da elite política e empresarial de Roraima

O garimpo avançou e cresceu exponencialmente nestes últimos anos dentro da TI Yanomami, adquirindo uma maior complexidade de meios disponíveis, de maquinário e tecnologias de comunicação, bem como uma maior capacidade de destruição.

Este avanço do garimpo, como já foi suficientemente demonstrado, coincidiu com a desestruturação do sistema de atendimento à saúde do povo Yanomami através do Distrito Especial de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kuana e da Secretaria Especial de Atenção à Saúde Indígena (Sesai).

Postos de saúde foram abandonados e desabastecidos, quando não ocupados pelos próprios garimpeiros; as equipes de profissionais de saúde ficaram sem condições para as tarefas de atenção primária nos postos e, a partir deles, nas visitas periódicas às comunidades. O resultado é o que hoje todos estamos constatando: aumento da violência contra os Yanomami, piora significativa dos indicadores de saúde relativos à malária, à desnutrição, à verminose ou a doenças respiratórias.

A relação sinérgica entre o aumento do garimpo e a desassistência na saúde criou condições objetivas que comprometem a sobrevivência física e cultural do povo Yanomami. E ambos os vetores tiveram durante quatro anos a digital, explícita e intencional, do governo federal e a cumplicidade da elite política e empresarial de Roraima.

Por isso, mais do que falar de “crise”, deve-se falar de situação grave de extermínio de um povo causada por um conjunto sistemático de medidas, ações e inações do governo.

Em janeiro de 2023, o novo governo federal decretou a Emergência Sanitária de Saúde Pública e começou a fazer um levantamento detalhado das informações e a adotar uma série de medidas que nos parecem absolutamente necessárias e fundamentais.

Todas estas medidas buscam, em um primeiro momento, ativar as condições emergenciais de atendimento ao povo Yanomami, com o objetivo de salvar vidas; ao mesmo tempo, estas medidas deverão ter como horizonte próximo a recuperação das condições para uma adequada atenção primária dentro do território, em diálogo com as comunidades indígenas, que permita retomar os programas de atendimento, prevenção e cuidado cotidiano da saúde do povo Yanomami.

Entretanto, as medidas de emergência sanitária não serão efetivas se não for abordada de forma contundente, firme e permanente a desintrusão do garimpo de dentro da TI Yanomami e de outras terras indígenas no país, bem como o desmantelamento de toda a estrutura de apoio e de toda a cadeia de interesses que há por trás do garimpo e que envolve agentes públicos e privados.

As iniciativas de controle do tráfego aéreo e fluvial, adotadas pelo governo desde a semana passada, eram medidas necessárias e possíveis – o que só evidencia, mais uma vez, a falta de vontade política do governo anterior, manifesta em sua permanente omissão.

É importante que estas medidas sejam acompanhadas por outras, como o controle da venda de combustíveis ou mantimentos por parte de empresários locais e, efetivamente, a continuidade das investigações até chegar aos mandantes e articuladores da rede criminosa que lucra com a destruição do território e dos meios de vida da população Yanomami.

É fundamental instalar as medidas necessárias, no âmbito dos inquéritos policiais e da retomada da proteção territorial, para evitar que o garimpo se desloque em direção a outras terras indígenas ou, inclusive, retorne ao mesmo território Yanomami

A desintrusão dos garimpeiros é medida urgente, como o confirma a atuação rápida do novo governo. A situação é complexa e exige determinação. Imagens de movimentos e deslocamentos de grupos de garimpeiros, por via fluvial ou varando no meio da floresta, circularam nos últimos dias em mensagens em redes sociais e em imagens de vídeos. Estes deslocamentos não significam necessariamente a livre e espontânea decisão de sair definitivamente do território.

É fundamental instalar as medidas necessárias, no âmbito dos inquéritos policiais e da retomada da proteção territorial, para evitar que o garimpo se desloque em direção a outras terras indígenas ou, inclusive, retorne ao mesmo território Yanomami, como demonstra a apreensão, pelas forças de segurança, de garimpeiros que adentravam o território nesta quarta-feira, dia 8.

A saída dos garimpeiros deverá ser acompanhada de medidas de apuração dos crimes cometidos contra o povo Yanomami: assassinatos, ameaças, intimidações, exploração sexual, aliciamento e destruição do ambiente, com o qual os Yanomami tecem, com uma riqueza cultural imensurável, sua visão de mundo e seu projeto de vida.

Somos cientes da complexidade deste trabalho de investigação, considerando o volume do contingente garimpeiro. Os crimes cometidos, contudo, precisam ser apurados; do contrário, o Estado passaria a mensagem de uma naturalização da violência contra os povos indígenas e de uma impunidade absolutamente inaceitáveis, alimentando as condições para que esta violência continue também em outros territórios.

Medidas sociais e econômicas que favoreçam a inserção e empregabilidade de pessoas envolvidas no garimpo parecem fundamentais. No entanto, estas medidas não poderão ser tomadas em detrimento da necessária apuração dos crimes cometidos contra o povo Yanomami.

É preciso salientar que a configuração social do garimpo hoje é muito mais complexa que décadas atrás. Nunca interessou à elite política de Roraima, que ocupa o poder regional há décadas, a busca de alternativas para estes segmentos sociais, pois sempre defenderam o garimpo como solução econômica para o estado e sempre defenderam apenas seus próprios interesses, mesmo cientes do desastre ambiental e da violação de direitos que o garimpo significava.

Preocupam-nos, por outro lado, declarações públicas de membros do atual governo federal que apontam para soluções que contemplam a persistência desta prática. A possibilidade de concretizar áreas reservadas ao garimpo em Roraima, como anunciado pelo ministro da Defesa, mesmo que “fora das terras indígenas”, mostra a pouca compreensão que se tem sobre o problema.

Esta proposta estava contemplada no projeto de lei de autoria do governo estadual de Roraima, presidido por Antônio Denarium, aprovado pela Assembleia Legislativa do estado em janeiro de 2021 e suspenso um mês depois pelo STF.

Além de autorizar de forma irresponsável o uso do mercúrio, organizações indígenas e a sociedade civil chamaram a atenção para o fato de que a regularização do garimpo “fora da terra indígena” acabaria servindo, de forma evidente, para a lavagem do ouro que continuaria sendo retirado ilegalmente dentro dos territórios indígenas.

Nos surpreende agora que um tema já superado retorne como suposta solução aos problemas econômicos de Roraima – e, neste caso, com a anuência e apoio de membros do novo governo federal. O garimpo nunca foi, nem será, solução econômica para Roraima e apenas irá manter a permanente degradação ambiental, violação de direitos e manutenção dos privilégios de uns poucos.

As responsabilidades políticas, civis e criminais deverão ser apuradas com rigor e deverão alcançar os mais altos interesses econômicos e políticos, tanto no âmbito do governo federal anterior como no âmbito do poder Legislativo

Entendemos que o atual governo federal precisa manter a firmeza e a coesão, compreender o histórico da região e, sobretudo, escutar com maior profundidade aos povos indígenas e suas organizações.

Destacamos, por fim, que as responsabilidades políticas, civis e criminais deverão ser apuradas com rigor e deverão alcançar os mais altos interesses econômicos e políticos, tanto no âmbito do governo federal anterior como no âmbito do poder Legislativo.

É estarrecedor constatar que aqueles que ocuparam as responsabilidades nos Ministérios de Justiça, Saúde, Meio Ambiente ou Direitos Humanos durante os quatro anos de violência contra o povo Yanomami hoje ocupem lugares na Câmara e no Senado Federal, sem que sejam responsabilizados pela omissão e inação no tempo em que exerciam responsabilidades públicas com competências e atribuições fundamentais.

É inaceitável que deputados federais que sempre defenderam o garimpo e que mantiveram vínculos com o desmando na saúde pública hoje sejam premiados e conduzidos para lugares de poder.

Na abordagem da situação atual da TI Yanomami, há muitas coisas em jogo e não podemos pretender resolvê-las de forma rápida e simples. É necessário atuar com firmeza e somar forças.

Estão em jogo os direitos, os territórios e os projetos de vida dos povos indígenas de Roraima e de todo o Brasil; estão em jogo as possibilidades de que o Brasil supere uma mentalidade predatória e um esquema de privilégios construídos sobre a vida dos povos indígenas e outras comunidades; estão em jogo as condições para pensar uma Roraima diferente, plural, justa, com perspectivas econômicas sustentáveis e próprias; estão em jogo, em síntese, as oportunidades de superar o domínio instalado pelas elites políticas e econômicas deste país.

 

10 de fevereiro de 2023

 

Conselho Indigenista Missionário – Cimi

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20 de jan. de 2023

FORMAÇÃO

CURSO DE FORMAÇÃO EM COMUNICADORES INDÍGENAS

Essa etapa (presencial) do Curso de Formação em Comunicadores Indígenas foi realizado no período de 17 a 19 de janeiro de 2023 no Centro de Formação Timbira Penxwyj Hempejxà, localizado na zona rural do município de Carolina, Sul do Maranhão. A Formação teve a participação de 40 jovens indígenas pertencente aos povos Apinajé e Krahô (Tocantins), Krikati, Gavião, Tembé, Guajajara, Kaapor, Canela (Mermórtumre), e Canela (Apanjekrá) do estado do Maranhão somando 40 jovens, sendo 18 mulheres e 22 homens.

Essa Oficina de Formação teve ainda a participação de anciãos indígenas e colaboradores não-índios, além dos instrutores e assessores que ministraram as aulas. No total essa Formação terá aulas no modo presencial e online utilizando as plataformas digitais, sendo essa primeira aula presencial e quatro aulas à distância. No decorrer desse primeiro modulo presencial os jovens tiveram aulas práticas sobre uso, operação e manuseio dos (gimbal e smartpfone) equipamentos digitais que receberam. Nas próximas aulas online aprenderão sobre fotografia digital, produção de cards, elaboração de textos, produção de audiovisual e redes sociais. A previsão de encerramento do Curso será em maio de 2023.

Nos três dias do Curso os jovens tiveram a oportunidade de se encontrar, conversar e se conhecer, alguns mais experientes e outros participando pela primeira vez. Os cursistas trocaram, informações, experiências e compartilharam entre si suas ansiedades, preocupações e perspectivas de futuro, diante dos desafios atuais. Houve muito envolvimento, interação e interesse dos participantes em conhecer o outro “parente”, saber os problemas enfrentados no território de cada um.

Durante as aulas ainda foram feitas abordagens sobre o papel e a importância dos comunicadores indígenas e o uso das mídias digitais para a documentação da cultura, fazer cobertura das mobilizações indígenas e como ferramenta de resistência e lutas em defesa da causa socioambiental. Através dessa Formação os jovens aprenderão produzir  conteúdos informativos contando suas próprias histórias em suas línguas e divulgar nas plataformas digitais. 

Na ocasião os jovens cineastas Guajajara apresentaram trabalhos audiovisual mostrando os Guardiões Teneterar agindo em defesa dos territórios Carú, Tembé e Awá Guajá localizados na Amazônia maranhense permanentemente invadidos por grileiros, madeireiros e criadores de gado. O artista e fotógrafo Genilson Guajajara, também apresentou acervo fotográfico de sua autoria, mostrando os aspectos e as belezas da cultura Teneterar. Seu trabalho é reconhecido e já recebeu algumas premiações. 

Esse Curso de Formação de Comunicadores Indígenas, foi idealizado pela Coordenação da Articulação dos Povos Indígenas do Maranhão – COAPIMA, Associação das Mulheres Indígenas do Maranhão - AMIMA, Associação dos Povos Timbira de Tocantins e Maranhão – Wyty Catë, em parceria com o Centro de Trabalho Indigenista – CTI e Instituto Sociedade População e Natureza – ISPN e apoio financeiro da Agencia de Desenvolvimento dos EUA - USAID



Terra Indígena Apinajé, 20 de janeiro de 2023


Associação União das Aldeias Apinajé-Pempxà     

4 de dez. de 2022

ENCONTRO DE MULHERES

Mulheres Indígenas dos Estados de Maranhão e Tocantins realizaram o 1º Encontro de Mulheres Timbira no Território Apinajé

O Banner do Encontro na entrada da aldeia Prata. (foto: acervo CTI. Nov/Dez 2022)

O 1º Encontro de Mulheres Timbira foi realizado no período de 28/11 a 02/12/2022 na comunidade aldeia Prata, no Território Apinajé, município de Tocantinópolis, no Estado de Tocantins. O Encontro teve a participação de lideranças mulheres representantes dos povos Apinajé, Krahô, Krikati, Gavião Pyhcop Catiji, Apanjekrá - Canela, Memortumré - Canela, Krepym Catejê e Krenyê, vindas de aldeias dos Estados de Maranhão e Tocantins. Ao menos 150 lideranças participaram do Encontro.

Durante o Encontro as mulheres conversaram e trocaram informações sobre as práticas tradicionais que tratam da saúde e da cultura dos Povos Timbira, falaram da importância e necessidades dessa transmissão de conhecimentos e saberes para novas gerações. As participantes ainda debateram sobre a gestão, a proteção e a sustentabilidade dos territórios e da participação política das mulheres Timbira em organizações, agendas e Ações voltadas para o Bem Viver das comunidades e a efetiva defesa dos direitos das mulheres indígenas.
Participantes do 1º Encontro de Mulheres Timbira. (foto: acervo CTI. Nov/Dez 2022)
As mulheres manifestaram suas preocupações frentes a esses desafios numa perspectivas de futuro, tendo em vista a situação caótica da política indigenista do atual governo, que está provocando a sistemática precarização do atendimento à saúde indígena que é responsabilidade da Secretaria Especial de Atenção à Saúde Indígena-SESAI, sobre o aparelhamento e sucateamento da Fundação Nacional do Índio-FUNAI e o desmonte do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis-IBAMA. 

Durante o 1º Encontro de Mulheres Timbira, ainda foram realizadas atividades que trataram sobre a importância da conservação e guarda das sementes crioulas para nossa produção de alimentos orgânicos. As mulheres debateram ainda sobre a diversidade de remédios encontrados nas florestas e nos campos do Cerrado e destacaram a importância  do artesanato produzido por elas utilizando as sementes, palhas de babaçu, buriti, fita de tucum e outros. 
Plenária do 1º Encontro de Mulheres Timbira (foto: acervo CTI. Nov. Dez 2022)
Nesse Encontro as mulheres compartilharam suas experiências e práticas cerimoniais ou rituais (amjekin) próprios, realizaram o preparo e partilha (distribuição) de alimentação tradicional entre os participantes. Todos os momentos do Encontro teve o acompanhamento dos cantadores Timbira com suas vozes animando e conduzindo as mulheres no hõkrepoj, reforçando o papel dos cantos e saberes na organização dos povos Timbira.

Esse 1º Encontro das Mulheres Timbira foi realizado pelo Centro de Trabalho Indigenista - CTI, em parceria com a Associação Wyty Cätë dos Povos Timbira do Maranhão e Tocantins, da Articulação das Mulheres Indígenas do Maranhão- AMINA, da Associação Comunitária PYka Mex e da União das Aldeias Apinajé-PEMPXÀ. O Encontro faz parte da estratégia de articulação e fortalecimento político e cultural dos Povos Timbira.
Participantes do Encontro no pátio da aldeia Prata. (foto: acervo CTI Nov/Dez 2022)
Assim podemos afirmar que 2022 foi o ano das mulheres Indígenas; especialmente as mulheres Apinajé, que receberam em nossa casa esse importante evento politico/cultural. Reconhecemos que esse ano foi de muitas lutas, e também de conquistas. Neste ano que aconteceram importantes rituais em diversas aldeias, que tiveram a expressiva participação e o protagonismo dessas guerreiras, mães, lutadoras e donas de casa. Foram celebrações organizadas e realizadas por mulheres e dedicadas às próprias mulheres. Em 2022 as mulheres celebraram a vida, o luto, a esperança, a resistência, a persistência...num sinal do compromisso em continuar defendendo a Mãe Terra, nossa Casa Comum para as presentes e futuras gerações.

























Terra Indígena Apinajé, dezembro de 2022


Associação União das Aldeias Apinajé - Pempxà               

2 de dez. de 2022

MEIO AMBIENTE

Indígenas Apinajé formam a segunda Brigada voluntária totalmente feminina

40 mulheres indígenas fizeram treinamento em campo no Tocantins

Novembro, 2022 - Para encontrar árvores frutíferas, é preciso ir cada vez mais longe na floresta amazônica. As folhas das palmeiras para refazer os tetos das casas em comunidades tradicionais estão mais escassas e a caça também. A constatação está no depoimento de Indígenas Apinajé e vai ao encontro de um triste dado: cresce a cada ano o número de incêndios florestais no Brasil. Entre janeiro e outubro de 2022 foram registrados cerca de 2,5 milhões de hectares de floresta queimados, sendo quase dois milhões na Amazônia, segundo o MAPBIomas. 

No Tocantins, entretanto, os esforços conjuntos para diminuir os incêndios na Amazônia receberão um reforço poderoso: a segunda brigada indígena voluntária totalmente feminina do Brasil. São 40 mulheres Apinajé que depois de intenso treinamento em campo e na sala de aula aprenderam como combater incêndios florestais e como fazer queima prescrita para proteger o seu território, uma área de 142 mil hectares localizada entre os rios Araguaia e Tocantins. 

O curso foi realizado pelo Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Prevfogo/Ibama), em parceria com o Serviço Florestal dos Estados Unidos (USFS) e o apoio da USAID/Brasil no âmbito do Programa de Manejo Florestal e Prevenção de Fogo do Brasil. No ano passado, também no Tocantins, o programa formou a primeira brigada indígena voluntária feminina com  29 mulheres Xerente.

O curso de formação da Brigada voluntária indígena feminina Apinajé também contou com o apoio do Fundo Casa Socioambiental, da Fundação Nacional do Índio - Funai/TO e dos municípios de Tocantinópolis, Cachoeirinha e Maurilândia.

Única mulher que já participa da Brigada indígena contratada dos Apinajé há dois anos, Salma Apinajé estava ansiosa para ter outras mulheres na próxima temporada de fogo. “É muito ruim ser a única mulher. Eu não tenho com quem conversar. Eles (os homens) conversam e eu fico de longe olhando. Se eles falam uma coisa, eu sorrio, mas fico com vergonha de falar com eles”, explica Salma. 

Tímida, Salma conta emocionada que é mãe solo de uma menina “sabida” de três anos que coloca a roupa de brigadista da mãe e fala que quer “tacar fogo” também. Apesar de lamentar ficar mais tempo longe da filha do que gostaria, Salma diz que gosta do que faz, precisa trabalhar para dar uma vida melhor para a filha e para os pais e sabe da importância do trabalho para a preservação do meio ambiente. 

Quebra de paradigma - Quem também está preocupada com as próximas gerações é Keli Apinajé, mãe de cinco filhos que ficaram aos cuidados da avó para ela participar do curso. "Eu penso no futuro dos meus filhos. Mas as pessoas não pensam em nada. Este ano mesmo, a maioria não vai ter pequi, bacuri, nem cajuí. Ano passado colhemos, mas este ano queimou tudo. Tanta destruição. Isso dói tanto em mim", lamenta a indígena. 

Keli estava insegura se passaria na prova teórica e nas atividades de campo, mas com a certeza de que persistir é importante, ficou e ainda convenceu algumas colegas que estavam com a mesma insegurança a ficarem. Sorte da Amazônia. Keli gabaritou a prova e já despontou como líder de brigada. 

“A Brigada veio somar e dar protagonismo às mulheres Apinajé. Nosso espaço de liderança é recente. Culturalmente as mulheres cuidam da roça, da casa e das crianças. Mas já temos sete caciques mulheres no nosso território”, afirma Maria Aparecida Apinajé, a Cida, uma das lideranças que buscou a parceria para levar o curso até a comunidade com intuito de garantir a preservação dos territórios e da cultura para as futuras gerações. 

Professora bilíngue, ela explica que além de destruir os recursos naturais fundamentais para a alimentação e construção das casas, o fogo destrói também a cultura local ao impedir, por conta da fumaça, as festividades, ou mesmo as cerimônias de cura realizadas pelo pajé com as ervas medicinais, cada vez mais difíceis de encontrar. "Temos lutado contra desmatamentos, madeireiros e grandes empreendimentos ao redor do nosso território", garante Cida. 

No período de 2014 a 2019, as mulheres representaram, em média, apenas 5% das brigadas florestais contratadas no Brasil, conforme estudo técnico elaborado pelo USFS e revisado pelo Prevfogo/IBAMA e ICMBio. Além do fogo, elas enfrentam a discriminação de gênero nas atividades, segundo Ana Luiza Violato Espada, especialista em Gênero e Governança Florestal do Serviço Florestal dos Estados Unidos.

“Vimos a partir do estudo que normas culturais de gênero impedem as mulheres de entrarem na brigada ou exercer as atribuições que elas gostariam. Muitas vezes as mulheres são impedidas de fazer o trabalho que gostariam de fazer, ao serem colocadas para fazer o trabalho na cozinha ou apenas no restelo quando estão em campo”, explica Ana, ao enfatizar que os dois trabalhos são importantes, mas que devem feitos por escolhas e não como únicas opções. 

Entusiasta da iniciativa, Alexandre Conde, supervisor estadual do Prevfogo/IBAMA no Tocantins, esteve a postos todos os dias para, na língua mãe dos Apinajé, tirar todas as dúvidas das alunas sobre as atividades passadas pelos instrutores. Muitas delas têm grande dificuldade com o Português. Antropólogo de formação, Conde chegou à região há 30 anos para ensinar a estrutura escrita da língua aos indígenas. Em 2013 atendeu a um convite do Ibama para montar uma brigada indígena Apinajé, única das oito etnias do estado que ainda não tinha formado uma. Passados 10 anos, já são 110 brigadistas indígenas no Tocantins. 

Os indígenas são excelentes brigadistas, garante Conde, porque conhecem o território e ainda têm comunicação fácil com os povos locais. A brigada feminina veio somar em um momento importante: "É um grande feito. É a valorização do poder da mulher dentro da cultura Apinajé. E isso vai fortalecer a questão da conservação e preservação da área", acredita Conde. 

Manejo Integrado do Fogo - O Manejo Integrado do Fogo (MIF) para combater incêndios florestais é uma atividade relativamente recente no Brasil. Em resumo, o MIF consiste em diversas estratégias de planejamento e gestão para prevenir e combater os incêndios florestais. Uma dessas estratégias é a queima prescrita, prática de colocar fogo de forma controlada em áreas estratégicas. É preciso diferenciar a queima prescrita dos incêndios florestais. Enquanto o primeiro é um fogo controlado, feito na época das chuvas e ajuda a prevenir incêndios severos, o segundo é descontrolado, geralmente de grandes proporções e pode ser causado por fenômenos naturais ou atos criminosos, o mais comum. 

No território Apinajé, todos os anos brigadistas discutem com a comunidade os lugares mais importantes de preservação como aldeias, lugares sagrados e fontes de água para aplicar o uso do fogo ao redor dessas áreas. Dessa forma, no período crítico de seca o fogo encontra a área que já foi queimada e tem um impacto bem menor para a comunidade. 

E as ações de prevenção aos incêndios florestais não param no curso. Os próximos passos das brigadistas indígenas Apinajé incluem atividades de coleta de sementes e produção de mudas, queima prescrita e intercâmbio com outras brigadas indígenas do Tocantins e Maranhão. Essas ações estão previstas no planejamento do projeto aprovado recentemente pelo Fundo Casa Socioambiental e que conta com a assessoria técnica do USFS, outra grande vitória para essas mulheres que se consideram Mē nija kuwy pa xwynh (aquelas que apagam fogo).  

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