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5 de jun. de 2017

LUTO

Morre a líder e cacique Maria Ireti Almeida Apinajé

Informamos com profundo pesar e tristeza a todos os parentes (lideranças) indígenas de outros povos do Estado do Tocantins e do Brasil, bem como aos aliados da causa indígena e parceiros ambientalistas e indigenistas, o falecimento de Maria Ireti Almeida Apinagé, ocorrido no último dia 02 de junho de 2017, sexta-feira. O triste fato aconteceu na aldeia Brejinho na Terra Apinajé, onde morava com familiares. As causas ainda não foram totalmente esclarecidas ou determinadas.

Apesar da idade, Maria Ireti Almeida Apinagé, era mulher forte, guerreira e militante incansável da causa indígena. Na condição de mulher indígena, mãe, avó, trabalhadora, conselheira e liderança do povo Apinajé, cumpriu sua missão participando de inúmeras mobilizações e manifestações locais, regionais e nacional em prol da vida dos povos indígenas. Assim Maria Ireti Almeida Apinagé com sua força cultural, sabedoria, simplicidade, conhecimento de causa, sensibilidade e graça divina muito contribuiu com a luta dos povos e do movimento de mulheres indígenas do Estado do Tocantins.

A essa grande lutadora Maria Ireti Almeida Apinagé, temos a dizer que sua caminhada nunca será esquecida e nossa luta jamais abandonada. Seu exemplo de Vida nos inspira, nos dá esperança e nos fortalece para continuarmos lutando por justiça e pelo Bem Viver das presentes e futuras gerações. Descanse em Paz!



                                                    Terra Indígena Apinajé, 05/06/2017



Assoc. União das Aldeias Apinajé-Pempxà


26 de mai. de 2017

SEMINÁRIO DE MULHERES INDÍGENAS

Mulheres Apinajé, Krahô, Karajá Xambioá, Xerente e Canela do Tocantins, reunidas em Miracema, debatem a questão das Mudanças Climáticas, na vida dos povos indígenas
Mulheres indígenas participantes do Seminário no CTL em Miracema-TOfoto: CIMI GOTO. maio de 2017)

         Nós mulheres indígenas dos povos Apinajé, Krahô, Karajá de Xambioá, Xerente e Kanela do Tocantins, reunidas nos dias 16 a 18 de maio no Centro de Treinamento de Lideranças – CTL, da Diocese de Miracema do Tocantins, participantes do Seminário “Mudanças climáticas: impactos e ameaças à Mãe Terra e à vida das mulheres indígenas”. Viemos aqui manifestar a nossa preocupação com a situação que está vivendo no nosso país.
Partilhamos com tristeza a situação que vivemos nas nossas aldeias, a morte dos bichos com o agrotóxico jogado nas lavouras, a falta de caça, a diminuição dos frutos do cerrado, a falta de água nas aldeias, rios e córregos muito secos, a diminuição das chuvas, provocando a seca das nossas roças de toco e a diminuição de alimentos.
Estamos preocupadas porque tudo está ameaçado de morte. Estamos tristes vendo tanta destruição da Mãe Terra e olhando os animais fugir da morte provocada pelo branco.
E junto com esta situação que vivemos nas aldeias, estão outras graves ameaças aos nossos territórios que não nos deixam viver tranquilas e sossegadas nas nossas aldeias.
São as propostas de lei que estão no Congresso Nacional. Todas elas lideradas pelo agronegócio e os ruralistas. Principalmente a PEC 215/00 que quer acabar com a demarcação das terras indígenas, a PEC 237 que propõe abrir as terras indígenas para o arrendamento ao agronegócio, o PLP 227 que quer criar a lei complementar para liberar os nossos territórios para construir grandes empreendimentos e tantos outros projetos de lei que só querem a morte dos indígenas e destruir a nossa Mãe Terra.
Sabemos que a FUNAI está sendo acabada pelo governo federal, está sem recursos para a demarcação das terras indígenas, sem poder fiscalizar e proteger de invasores, que roubam nossas riquezas. E a constante mudança dos presidentes da FUNAI mostra o descaso e desrespeito com os povos indígenas e prova que o interesse não é nosso direito e sim os interesses do agronegócio e das grandes empresas que cobiçam os nossos territórios.
E assim como nós povos indígenas, também os direitos do povo brasileiro atualmente estão ameaçados. Principalmente pelas reformas do governo Temer contra os direitos trabalhistas, da previdência social e de outros direitos que estão na Constituição Federal e que não estão sendo respeitados e estão sendo jogados como lixo pelo governo atual.
E para fazer frente a tanta violência contra os nossos direitos e da nossa Mãe Terra, estamos reunidas aqui, para juntas, buscar forças na nossa cultura e juntarmos para conhecer melhor os nossos direitos e defendê-los.
Com a contribuição do Ivo Poletto, representante do Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Social refletirmos sobre os efeitos que estão surgindo na natureza provocados pelo aquecimento global e que são consequência de um modelo de morte que só busca produzir, consumir e destruir.
Tudo o que está acontecendo nas nossas aldeias, de falta de água, diminuição da chuva, morte de animais e quentura de mais, não é outra coisa que, a terra sofrendo pelo que se faz com ela. Principalmente com o modelo de agricultura que destrói o nosso cerrado, que é um bioma importante para todos, porém está quase acabado pelo agronegócio e suas monoculturas que acabam com as nossas sementes tradicionais e com o nossos modos tradicionais de produzir e nos alimentar.
Criança Apinajé. (foto: CIMI/GOTO. maio de 2017)

   Sabemos que tudo está ligado e merece viver, a terra, o vento, a água, a chuva, o rio, os animais e nós. Se nós não cuidarmos e preservarmos o que Deus deixou para nós, vamos acabar com a natureza e não vai ter vida e comida para os nossos filhos, netos e bisnetos.
O rio vai acabar, a mata vai acabar, os animais vão acabar, tudo vai acabar. E nós não vamos deixar isso acontecer. Por isso viemos de longe, de nossas aldeias, para dizer para o branco, para o Kupẽ que não vamos deixar destruir a nossa Mãe Terra. “Nós não vamos deixar que matem a nossa mãe terra, pois nós somos os guardiões da natureza”, afirma Gercílha Crukoy Krahô.
Por isso diante de toda esta desgraça contra os povos indígenas queremos pedir para a sociedade brasileira que nos juntemos todos na defesa da Mãe Terra, pois com a morte do nosso Cerrado pelo MATOPIBA e pelo agronegócio não somente nós vamos sofrer, não só nós vamos passar sede e fome, vamos sofrer todos juntos.
Convidamos a nos unir na defesa da Mãe Terra, aos Quilombolas, ribeirinhos, camponeses, Quebradeiras de coco, assentados, e todos os pobres que vivem nas cidades e a todas as pessoas que se preocupam com a natureza.
        Exigimos que demarque com urgência a terra indígena dos Avá-Canoeiro, sofrimento para acabar com  desse povo. Que os deputados respeite os nossos direitos e não aprove a PEC 215 e 237. Não vamos arrendar a nossa terra para o agronegócio a nossa terra é não para ser machucada ela é nossa mãe, nossa terra não esta a venda.
         Que o STF julgue a ADI 5.312 para derrubar a Lei Estadual 2.713/2013 que isenta de licenciamento ambiental todos os projetos agrossilvipastoris no estado do Tocantins. Também não queremos que o novo presidente da FUNAI seja um general e sim,uma pessoa comprometida com a questão indígena e priorize a demarcação, proteção e fiscalização das terras indígenas.
       Ficamos bastante tristes com que fizeram com os nossos parentes e exigimos que sejam punidos os agressores do povo Gamela e demarcado o território dos nossos parentes.
        Pedimos anulação do relatório da CPI da FUNAI/INCRA.  Repudiamos os indiciamentos de todas as pessoas que estão sendo acusadas, pois esta CPI somente está a favor dos ruralistas e do agronegócio.
       Reafirmamos que não vamos parar na defesa de nossos direitos e de nossa Mãe Terra!
Demarcação Já!



Miracema do Tocantins, 18 de maio de 2017.

5 de mai. de 2017

MANIFESTO DO POVO APINAJÉ

NÃO AO GOLPE; NENHUM DIREITO A MENOS!
Na aldeia Prata, caciques e lideranças Apinajé, participantes da reunião. (foto: LaudovinaPereira/CIMI. Maio de 2017

Nós caciques e lideranças Apinajé, incluindo jovens estudantes, professores, conselheiros, mulheres e idosos reunidos nos dias 02, 03 e 04 de maio de 2017 na aldeia Prata, T.I. Apinajé no município de Tocantinópolis – TO no Norte de Tocantins, somando mais de 100 pessoas viemos a público manifestar contra qualquer reforma e retrocesso conduzidos pelo governo Michel Temer que estejam comprometendo nossas conquistas e ameaçando nossos direitos sociais, ambientais e territoriais garantidos na Constituição Federal do Brasil.

Consideramos que esse governo, junto com a maioria dos parlamentares do Senado e da Câmara e parte do Judiciário têm atuado de forma agressiva para retirar nossos direitos constitucionais. Nos últimos anos estamos sendo violentamente ignorados e agredidos por setores empresarias e políticos articulados dentro dos três poderes da Republica.

Debate sobre as PECs que tramitam no Congresso Nacional. (foto: Laudovina Pereira. CIMI/GOTO. Maio de 2017)

Com a finalidade de roubar nossos territórios, esses parlamentares tentam de todos as formas alterar a Constituição Federal e assim legalizar o genocídio e extermínio dos povos indígenas através de propostas como as PEC 215/2000 que propõe transferir para o Congresso Nacional as prerrogativas de demarcação de terras indígenas, a PEC 237/2013 que propõe liberar as Terras Indígenas para o arredamento, o PL 1610 da mineração e o PLP 227/2012, cria Lei Complementar que autoriza implantação de grandes projetos dentro das terras indígenas.

É inaceitável que governo Michel Temer de forma intencional e abusiva ainda mantenha o Deputado Osmar Serraglio um ruralista radical, hostil e agressivo no Ministério da Justiça - MJ no qual a FUNAI está vinculada. Ressaltamos que esse ruralista tem lado e sempre tem atuado de forma intensiva contra os direitos dos indígenas no Brasil, sendo ainda autor e principal articulador da PEC 215/2000 no Congresso Nacional.

Assim atendendo as ordens da bancada ruralista, o governo Michel Temer tende a desmontar e esvaziar totalmente a Fundação Nacional do Índio - FUNAI, de tal modo que nas últimas semanas foram extintas 51 Coordenações Técnicas Locais -CTLs em todo o País, e servidores estão sendo exonerados.

Essa postura do governo brasileiro com relação aos povos indígenas é um presente a determinados grupos do agronegócio, dispostos a recorrer às praticas de constrangimentos, ameaças, intimidações e violência extrema, que podem resultar e assassinatos, como as ações que ocorreram na última semana contra o povo Gamela no Estado Maranhão. Assim de forma sutil e indireta esse governo repassa seu recado para os indígenas e quilombolas do Brasil. Considerando que em 2015, 137 lideranças indígenas foram assassinadas em conflitos pela terra no País.

Repudiamos essa campanha do ódio perpetrada por determinados setores políticos e empresariais cuja finalidade é se apropriar das terras indígenas com apoio do governo, do Congresso e parte do Judiciário. Não concordamos que tantos retrocessos, violações de direitos e insegurança jurídica motivada pela ganância, prepotência e intolerância venham causar mais transtornos, instabilidades e prejuízos à vida das presentes e futuras gerações.
Na aldeia Prata, lideranças Apinajé, acompanham com atenção os debates. (foto: Laudovina Pereira/CIMI. Maio de 2017)

É inaceitável que autoridades dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário que poderiam zelar pela ordem, a paz e a segurança de nossa população, estejam utilizando se de suas influencias, poderes e da maquina estatal para promover a violência, a opressão e o terrorismo institucional contra comunidades indígenas minoritárias e vulneráveis.

Entendemos que essa atitude (opção) política do governo brasileiro está contrariando a Convenção 169 da OIT e a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas, acordos dos quais o país é signatário. A própria Constituição Federal do Brasil está sendo descumprida e afrontada. Portanto é necessário que também a opinião pública nacional e internacional (juristas, artistas, jornalistas, ambientalistas, ativistas dos Direitos Humanos e a imprensa independente) intensifiquem campanhas contra essa situação que ocorre no Brasil.

Diante do exposto requeremos da Organização dos Estados Americanos - OEA, da Organização Internacional do Trabalho - OIT e da própria Organização das Nações Unidas - ONU medidas cabíveis no sentido de questionar judicialmente o governo brasileiro para que o mesmo observe as recomendações e cumpra os acordos e tratados internacionais ratificados pelo Brasil. É fundamental ainda que o governo brasileiro respeite os Art. 231 e 232 da Constituição Federal, dando condições para a FUNAI demarcar, proteger e garantir as terras indígenas e assim fazer cessar a onda de violências contra nossos povos no país.


Terra Indígena Apinajé, 04 de maio de 2017.


Associação União das AldeiasApinajé-Pempxà



28 de abr. de 2017

ATL 2017

Inserido por: Administrador em 27/04/2017.
Fonte da notícia: Mobilização Nacional Indígena

A plenária da manhã da 14ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL) selou a unificação da luta dos povos indígenas em defesa de seus direitos. O documento final da mobilização, aprovado pela plenária, condena os ataques e ameaças aos direitos originários de forma contundente.

“Denunciamos a mais grave e iminente ofensiva aos direitos dos povos indígenas desde a Constituição Federal de 1988, orquestrada pelos três Poderes da República em conluio com as oligarquias econômicas nacionais e internacionais”, diz o documento (leia a carta na íntegra abaixo).

O documento final do ATL será protocolado em vários ministérios e no Palácio do Planalto, na tarde de hoje (27/4), durante mais uma marcha dos indígenas na Esplanada dos Ministérios. Também está prevista a visita de uma comitiva de líderes indígenas a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). À noite, à partir das 19h, segue a programação cultural do acampamento, com uma a apresentação musical e a exibição do filme “Martírio”, de Vincent Carelli.

Mais de quatro mil indígenas participam do acampamento. A expectativa inicial da organização era que um pouco mais de 1,5 mil pessoas estivessem na mobilização. A 14ª edição do ATL é a maior da história e segue até esta sexta (28/4).

DECLARAÇÃO DO 14º ACAMPAMENTO TERRA LIVRE


Nós, povos e organizações indígenas do Brasil, mais de quatro mil lideranças de todas as regiões do país, reunidos por ocasião do XIV Acampamento Terra Livre, realizado em Brasília/DF de 24 a 28 de abril de 2017, diante dos ataques e medidas adotadas pelo Estado brasileiro voltados a suprimir nossos direitos garantidos pela Constituição Federal e pelos Tratados internacionais ratificados pelo Brasil, vimos junto à opinião pública nacional e internacional nos manifestar.

Denunciamos a mais grave e iminente ofensiva aos direitos dos povos indígenas desde a Constituição Federal de 1988, orquestrada pelos três Poderes da República em conluio com as oligarquias econômicas nacionais e internacionais, com o objetivo de usurpar e explorar nossos territórios tradicionais e destruir os bens naturais, essenciais para a preservação da vida e o bem estar da humanidade, bem como devastar o patrimônio sociocultural que milenarmente preservamos.

Desde que tomou o poder, o governo Michel Temer tem adotado graves medidas para desmantelar todas as políticas públicas voltadas a atender de forma diferenciada nossos povos, como o subsistema de saúde indígena, a educação escolar indígena e a identificação, demarcação, gestão e proteção das terras indígenas. Além disso, tem promovido o sucateamento dos já fragilizados órgãos públicos, com inaceitáveis cortes orçamentários e de recursos humanos na Fundação Nacional do Índio (Funai) e com nomeações de notórios inimigos dos povos indígenas para cargos de confiança, além de promover o retorno da política assimilacionista e tutelar adotada durante a ditadura militar, responsável pelo etnocídio e genocídio dos nossos povos, em direta afronta à nossa autonomia e dignidade, garantidos expressamente pela Lei Maior.

No Legislativo, são cada vez mais frontais os ataques aos direitos fundamentais dos povos indígenas, orquestrados por um Congresso Nacional dominado por interesses privados imediatistas e contrários ao interesse público, como o agronegócio, a mineração, as empreiteiras, setores industriais e outros oligopólios nacionais e internacionais. Repudiamos com veemência as propostas de emenda constitucional, projetos de lei e demais proposições legislativas violadoras dos nossos direitos originários e dos direitos das demais populações tradicionais e do campo, que tramitam sem qualquer consulta ou debate junto às nossas instâncias representativas, tais como a PEC 215/2000, a PEC 187/2016, o PL 1610/1996, o PL 3729/2004 e outras iniciativas declaradamente anti-indígenas.

Igualmente nos opomos de forma enfática a decisões adotadas pelo Poder Judiciário para anular terras indígenas já consolidadas e demarcadas definitivamente, privilegiando interesses ilegítimos de invasores e promovendo violentas reintegrações de posse, tudo sem qualquer respeito aos mais básicos direitos do acesso à justiça. A adoção de teses jurídicas nefastas, como a do marco temporal, serve para aniquilar nosso direito originário às terras tradicionais e validar o grave histórico de perseguição e matança contra nossos povos e a invasão dos nossos territórios, constituindo inaceitável injustiça, a ser denunciada nacional e internacionalmente visando à reparação de todas as violências sofridas até os dias de hoje.

Soma-se a essa grave onda de ataques aos nossos direitos o aumento exponencial do racismo institucional e a criminalização promovidos em todo o País contra nossas lideranças, organizações, comunidades e entidades parceiras.

Diante desse drástico cenário, reafirmamos que não admitiremos as violências, retrocessos e ameaças perpetrados pelo Estado brasileiro e pelas oligarquias econômicas contra nossas vidas e nossos direitos, assim como conclamamos toda a sociedade brasileira e a comunidade internacional a se unir à luta dos povos originários pela defesa dos territórios tradicionais e da mãe natureza, pelo bem estar de todas as formas de vida.

Unificar as lutas em defesa do Brasil Indígena!
Pela garantia dos direitos originários dos nossos povos!


Brasília (DF), 27 de abril de 2017


ARTICULAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL – APIB
MOBILIZAÇÃO NACIONAL INDÍGENA

27 de abr. de 2017

DIREITOS HUMANOS

Inserido por: Administrador em 27/04/2017.
Fonte da notícia: Por Cleber César Buzatto, Licenciado em Filosofia e Secretário Executivo do Cimi






Velório de Clodiodi Aquileu Guarani e Kaiowá, assassinado por pistoleiros no Cone Sul do MS. Foto: Ana Mendes/Cimi


Por Cleber César Buzatto*, Secretário Executivo do Cimi | De Bruxelas, Bélgica


As organizações participantes do “Seminário da Sociedade Civil União Europeia-Brasil em Direitos Humanos”, ocorrido neste dia 26 de abril, em Bruxelas, Bélgica, aprovaram recomendação por meio da qual defendem a adoção de ‘Barreiras Humanitárias’ à importação de commodities agrícolas do Brasil por parte da União Europeia. A proposta, por nós apresentada, foi acolhida e consta nas conclusões do Seminário levadas ao corpo diplomático Europeu e Brasileiro, reunidos neste dia 27 de abril, no Diálogo Oficial bilateral União Europeia-Brasil sobre Direitos Humanos.


A proposição tem por base a realidade de violações de direitos humanos cometidas contra povos indígenas, quilombolas, demais populações tradicionais e camponeses, por parte do agronegócio, no Brasil, além dos tratados internacionais de direitos humanos e as normas vigentes no que tange ao comércio bilateral União Europeia-Brasil.

Neste sentido, é importante salientar que as importações de commodities agrícolas brasileiras, por parte da União Europeia, seguem normas rígidas no que tange à questão sanitária, as chamadas ‘Barreiras Sanitárias’. Exigência de acordos comerciais firmados entre as partes, todo e qualquer problema dessa ordem que ocorra no Brasil deve ser imediatamente comunicado pelas autoridades brasileiras e tem o condão de provocar medidas restritivas à importação das respectivas commodities por parte dos Estados Membros da União Europeia.

        
Em consequência disso, observa-se a existência de um cuidado muito grande por parte das autoridades brasileiras, e mesmo de organizações representantes do agronegócio do Brasil, a fim de que não ocorram problemas sanitários em produtos agrícolas destinados à exportação.


Consideramos que critérios e procedimentos análogos aos adotados em torno das ‘Barreiras Sanitárias’ devem ser criados e adotados pela União Europeia, em casos de violações de direitos humanos por parte do agronegócio e seus representantes no Brasil, o que denominamos de ‘Barreiras Humanitárias’.

Parece-nos fortemente paradoxal e não razoável o fato de que uma notícia, por exemplo, sobre a ocorrência de eventual caso de febre aftosa em um boi numa determinada região do Brasil provoque restrição, suspensão e até mesmo o fechamento do mercado europeu à importação de carne bovina brasileira, ao mesmo tempo em que notícias como o massacre de Eldorado do Carajás, ocorrido no Pará, em 1997, o Massacre de Caarapó, no Mato Grosso do Sul, em 2016, e o Massacre de Colniza, no Mato Grosso, em 2017, não tenham consequências; restrição, suspensão ou fechamento do mesmo mercado à importação de commodities produzidas pelo agronegócio nessas regiões.

O assassinato de seres humanos tem muito mais importância do que uma febre aftosa em um boi qualquer no Brasil. Por isso, esses assassinatos, cada vez mais frequentes contra defensores de direitos humanos que atuam no campo brasileiro, devem ser tratados como motivos mais que suficientes para determinar restrições, suspensões e fechamento do mercado europeu à importação de commodities do Brasil.

Situações como a liberação, por parte da União Europeia, à importação de carne bovina proveniente de dez municípios localizados no Cone Sul do estado do Mato Grosso do Sul, há cerca de um ano, tão logo tenham sido vencidas as restrições sanitárias não são aceitáveis do ponto de vista moral e dos direitos humanos. As violações humanitárias que são cometidas recorrentemente contra os Guarani Kaiowá, exatamente naquela região, precisam ser valorizadas e servir de parâmetro para balizar as decisões da União Europeia neste e noutros casos análogos existentes na realidade Brasileira.

Diante do caos vivido no Brasil quanto às violações de direitos humanos provadas por representantes dos interesses do agronegócio, bem como, do absoluto controle político das estruturas legislativas e de governo no Estado brasileiro pelo mesmo setor, a adoção de ‘Barreiras Humanitárias’ à importação de commodities agrícolas do Brasil é um imperativo categórico que precisa ser tratado, por parte da União Europeia, seus órgãos deliberativos e Estados Membros, com a devida atenção e cuidado.

Não temos e, por evidente, não pretendemos apresentar receitas sobre como a União Europeia poderá construir e aplicar essas ‘Barreiras Humanitárias’ à importação de commodities agrícolas do Brasil, mas entendemos que elas são necessárias e urgentes para salvar direitos e vidas no campo brasileiro.


*Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora da Imaculada Conceição (FAFIMC)

Opinião

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MEIO AMBIENTE

Pandas conhecem o Cerrado

04 Abril 2017  |  0 Comments

     O WWF é uma rede global formada por pessoas que trabalham pela conservação da natureza em harmonia com a atividade humana na Terra. Muitas delas lidam com a produção de commodities e o impacto que elas têm no meio ambiente, entre elas a soja. Todavia, poucas delas conhecem de perto a realidade da produção agrícola de países exportadores, como o Brasil.
       No país, a produção da oleaginosa acontece em grande escala no Cerrado, e nos últimos anos, uma área específica desse bioma brasileiro conhecida como Matopiba (um acrônimo formado com as iniciais dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) e considerada a última fronteira agrícola, tem perdido grande parte de sua vegetação nativa para a produção de soja nos últimos anos.
       Sendo assim, com a finalidade de conhecer o processo de expansão da produção de soja e pecuária na fronteira agrícola brasileira sobre o Cerrado do Matopiba, o WWF-Brasil organizou uma expedição de campo pelos estados do Piauí, Maranhão e Tocantins no período de 27 de março a 2 de abril com alguns especialistas de Rede WWF que trabalham direta ou indiretamente com a temática da soja em seus países. “Nosso objetivo é fomentar diálogos intersetoriais acerca da ocupação do solo no Matopiba, de forma que aspectos sociais, ambientais e econômicos sejam considerados”, explica Edegar de Oliveira, coordenador do programa Agricultura e Alimentos do WWF-Brasil.

Dia 1 – indígenas e elite pecuária

    O roteiro começou pelo Tocantins, em visita à comunidade dos índios Apinajé. Eles vivem numa área demarcada com mais de 141 mil hectares, distribuídos em 42 aldeias. A reserva está localizada nos municípios de Tocantinópolis, Maurilândia, Cachoeirinha e São Bento do Tocantins.
    O grupo foi recebido por lideranças na aldeia Prata onde os indígenas relataram as ameaças e impactos do Projeto de Desenvolvimento do Cerrado - PRODECER, que desde a década de 90 atinge os territórios indígenas, quilombolas e camponeses dessa região.  Também contaram aos participantes o episódio da construção da rodovia Transamazônica (mais informações abaixo) que cortaria a reserva. Porém, por meio de resistência e mobilização, eles conseguiram fazer com que a rodovia fosse desviada. A comitiva do WWF também visitou uma área de Cerrado desmatada e embargada em 2015 ao lado da aldeia. 
     Na parte da tarde a caravana seguiu viagem rumo à Araguaína. O destino foi a fazenda Vale do Boi, que há mais de 30 anos se dedica à criação e ao melhoramento genético da raça Nelore. A propriedade do pecuarista mineiro de Uberaba, Epaminondas Andrade é conhecida no setor por apresentar alto nível de gestão e genética com uma seleção focada na produção de carne em regime de pasto e já acumula alguns prêmios por isso.

Dia 2 – grandes produtores e assentamento rural.

     O roteiro seguinte começou no Maranhão, mais precisamente no município de Balsas. Lá, o grupo foi recebido por Gisela Introvini, superintendente da Fundação de Apoio à Pesquisa do Corredor de Exportação Norte “Irineu Alcides Bays” (FAPCEN), na Fazenda Sol Nascente. Em seguida, o grupo foi surpreendido com uma apresentação das crianças que fazem parte do projeto “Fazendo Arte” apoiado pela FAPCEN, em visita à comunidade São Cardoso.

     Em seguida, as “pandas” (como são chamados os colaboradores do WWF) partiram para o Piauí, rumo ao município de Ribeiro Gonçalves. O trajeto pela rodovia Transcerrado, uma rodovia estadual e a principal via de escoamento da produção agrícola piauiense.  Com 340 km, a rodovia cruza o extremo sul do Piauí e apenas os 50 quilômetros iniciais e outro trecho de 117 quilômetros entre as cidades de Sebastião Leal e Uruçuí são asfaltados. O trajeto é longo e difícil, especialmente em época de colheita quando aumenta o fluxo de carretas e durante as chuvas. O cenário fica ainda mais sofrível quando se vê às margens da rodovia o desmatamento recente.
    Chegando a Ribeiro Gonçalves o contexto da viagem tomou outra perspectiva, pois foi o momento de ouvir e perceber a realidade dos pequenos produtores. No assentamento São Bento, o grupo foi recebido por membros da comunidade liderados pelo Padre Aécio Cordeiro. Eles explicaram que existem alguns entraves entre as comunidades e os latifúndios do agronegócio.
     Muitos deles são motivados pela especulação de terras, geralmente seguida por conflitos agrários frutos de fraudes ou confusões cartoriais e grilagem; ou pelo impacto da atividade agrícola em si, causando diminuição de disponibilidade da água devido ao desmatamento, compactação do solo, assoreamento dos rios e/ou seca. Eles relataram também os males do uso de agroquímicos e sua aplicação por meio de pulverização por aviões agrícolas que muitas vezes causam morte de animais, ressecamento dos cultivos agrícolas comunitários, comprometendo a produção orgânica e agroecológica das comunidades.

Dia 3 – soja não convencional e certificação RTRS

       No município de Sebastião Leal no Piauí, a caravana foi recebida na câmara de vereadores pelo prefeito Ângelo Pereira e demais autoridades locais onde puderam debater acerca dos desafios da produção de soja e da conservação ambiental.
    Logo após a cerimônia, eles visitaram a fazenda Chapadão do Céu, propriedade em fase de adequação para receber a certificação RTRS, onde foram recebidos pelo proprietário Paulo Dalto e pelo presidente da Aprosoja do Piauí, Altair Fianco. Com aproximadamente sete mil hectares, a propriedade possui cerca de 80% de sua produção total com soja convencional (não transgênica).
    No período vespertino, a visita aconteceu em uma das fazendas do Grupo Progresso. A propriedade de 47 mil hectares em Sebastião Leal é responsável pelo cultivo de soja, milho e algodão, e também pelo beneficiamento do algodão em rama para transformar em pluma. Ela é uma das quatro fazendas da família Sanders, de origem holandesa, que chegou ao Piauí no ano de 2000 vindo do Rio Grande do Sul e que também possui propriedades em Paracatu, Minas Gerais.

Dia 4 – integração lavoura-pecuária-floresta

     No penúltimo dia, a comitiva seguiu para o município de São Raimundo das Mangabeiras, no Maranhão. O destino foi a fazenda Santa Luzia, uma propriedade que é referência em boas práticas agrícolas e na aplicação do sistema de integração lavoura, pecuária e floresta (ILPF), que começou com uma experiência de 10 hectares e hoje adota o sistema em quase 6 mil hectares. O proprietário Oswaldo Massao contou que após a inserção da Integração Lavoura Pecuária Floresta a realidade da propriedade foi completamente alterada e para ele, esse tipo de sistema é “o futuro do Cerrado”. Atualmente, ele faz três safras, uma de soja, uma de milho, milho safrinha com braquiárias e bovinos, obtendo um aproveitamento de 100% ou mais do solo.
      Em seguida, a comitiva foi recebida pela equipe técnica do Grupo RISA, para uma rápida visita à fazenda Roseira, localizada em Balsas. Na oportunidade, foi apresentado ao grupo o “projeto São José”, que consiste em três lavouras em cima de uma mesma área em um só ano.

Dia 5 – Chapada das Mesas

      A viagem de campo pelo Cerrado brasileiro encerrou-se em Carolina no Maranhão. A cidade que também é conhecida por “paraíso das águas”, por ter em seu território em torno de 89 cachoeiras e mais de 400 nascentes, é a porta de entrada da Chapada das Mesas. Um misto de sertão, bosques de buritizais, quedas d´água, cânions e paisagens de puro Cerrado, um dos biomas mais importantes do planeta e que responde por um terço da biodiversidade brasileira.
    “Nesta visita tivemos uma visão clara dos desafios ambientais e sociais que ainda existem, e pudemos conhecer as soluções que estão sendo construídas para contribuirmos e apoiar as iniciativas positivas que acontecem na região. Creio que podemos estar nesse momento escrevendo uma nova página para essa região e para a questão da soja no Brasil”, conclui Jean Timmers, líder global de soja do WWF.
 
Participantes:
Edegar de Oliveira – WWF-Brasil
Carolina Siqueira – WWF-Brasil
Kolbe Soares– WWF-Brasil
Maria Fernanda Maia – WWF-Brasil
Sandra Mulder – WWF-NL
Howard Lee – WWF-US
Margareta Restrom – WWF-Suécia
Zhonghao Jin – WWF-China
Margaret Arbuthnot – WWF-US
Kate Schaffner – WWF-US
Luis Neves – WWF Internacional
Jean Timmers – WWF Internacional
Ian MacConnel – WWF-Australia
Dmitry Burenko – WWF-Russia
Pavel Boev – WWF-Russia
Elly Peters –WWF-Bélgica
Lenaic Moniot – WWF-França


Fonte: WWF Brasil

PÀRKAPER