Pular para o conteúdo principal

MEIO AMBIENTE

Pandas conhecem o Cerrado

04 Abril 2017  |  0 Comments

     O WWF é uma rede global formada por pessoas que trabalham pela conservação da natureza em harmonia com a atividade humana na Terra. Muitas delas lidam com a produção de commodities e o impacto que elas têm no meio ambiente, entre elas a soja. Todavia, poucas delas conhecem de perto a realidade da produção agrícola de países exportadores, como o Brasil.
       No país, a produção da oleaginosa acontece em grande escala no Cerrado, e nos últimos anos, uma área específica desse bioma brasileiro conhecida como Matopiba (um acrônimo formado com as iniciais dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) e considerada a última fronteira agrícola, tem perdido grande parte de sua vegetação nativa para a produção de soja nos últimos anos.
       Sendo assim, com a finalidade de conhecer o processo de expansão da produção de soja e pecuária na fronteira agrícola brasileira sobre o Cerrado do Matopiba, o WWF-Brasil organizou uma expedição de campo pelos estados do Piauí, Maranhão e Tocantins no período de 27 de março a 2 de abril com alguns especialistas de Rede WWF que trabalham direta ou indiretamente com a temática da soja em seus países. “Nosso objetivo é fomentar diálogos intersetoriais acerca da ocupação do solo no Matopiba, de forma que aspectos sociais, ambientais e econômicos sejam considerados”, explica Edegar de Oliveira, coordenador do programa Agricultura e Alimentos do WWF-Brasil.

Dia 1 – indígenas e elite pecuária

    O roteiro começou pelo Tocantins, em visita à comunidade dos índios Apinajé. Eles vivem numa área demarcada com mais de 141 mil hectares, distribuídos em 42 aldeias. A reserva está localizada nos municípios de Tocantinópolis, Maurilândia, Cachoeirinha e São Bento do Tocantins.
    O grupo foi recebido por lideranças na aldeia Prata onde os indígenas relataram as ameaças e impactos do Projeto de Desenvolvimento do Cerrado - PRODECER, que desde a década de 90 atinge os territórios indígenas, quilombolas e camponeses dessa região.  Também contaram aos participantes o episódio da construção da rodovia Transamazônica (mais informações abaixo) que cortaria a reserva. Porém, por meio de resistência e mobilização, eles conseguiram fazer com que a rodovia fosse desviada. A comitiva do WWF também visitou uma área de Cerrado desmatada e embargada em 2015 ao lado da aldeia. 
     Na parte da tarde a caravana seguiu viagem rumo à Araguaína. O destino foi a fazenda Vale do Boi, que há mais de 30 anos se dedica à criação e ao melhoramento genético da raça Nelore. A propriedade do pecuarista mineiro de Uberaba, Epaminondas Andrade é conhecida no setor por apresentar alto nível de gestão e genética com uma seleção focada na produção de carne em regime de pasto e já acumula alguns prêmios por isso.

Dia 2 – grandes produtores e assentamento rural.

     O roteiro seguinte começou no Maranhão, mais precisamente no município de Balsas. Lá, o grupo foi recebido por Gisela Introvini, superintendente da Fundação de Apoio à Pesquisa do Corredor de Exportação Norte “Irineu Alcides Bays” (FAPCEN), na Fazenda Sol Nascente. Em seguida, o grupo foi surpreendido com uma apresentação das crianças que fazem parte do projeto “Fazendo Arte” apoiado pela FAPCEN, em visita à comunidade São Cardoso.

     Em seguida, as “pandas” (como são chamados os colaboradores do WWF) partiram para o Piauí, rumo ao município de Ribeiro Gonçalves. O trajeto pela rodovia Transcerrado, uma rodovia estadual e a principal via de escoamento da produção agrícola piauiense.  Com 340 km, a rodovia cruza o extremo sul do Piauí e apenas os 50 quilômetros iniciais e outro trecho de 117 quilômetros entre as cidades de Sebastião Leal e Uruçuí são asfaltados. O trajeto é longo e difícil, especialmente em época de colheita quando aumenta o fluxo de carretas e durante as chuvas. O cenário fica ainda mais sofrível quando se vê às margens da rodovia o desmatamento recente.
    Chegando a Ribeiro Gonçalves o contexto da viagem tomou outra perspectiva, pois foi o momento de ouvir e perceber a realidade dos pequenos produtores. No assentamento São Bento, o grupo foi recebido por membros da comunidade liderados pelo Padre Aécio Cordeiro. Eles explicaram que existem alguns entraves entre as comunidades e os latifúndios do agronegócio.
     Muitos deles são motivados pela especulação de terras, geralmente seguida por conflitos agrários frutos de fraudes ou confusões cartoriais e grilagem; ou pelo impacto da atividade agrícola em si, causando diminuição de disponibilidade da água devido ao desmatamento, compactação do solo, assoreamento dos rios e/ou seca. Eles relataram também os males do uso de agroquímicos e sua aplicação por meio de pulverização por aviões agrícolas que muitas vezes causam morte de animais, ressecamento dos cultivos agrícolas comunitários, comprometendo a produção orgânica e agroecológica das comunidades.

Dia 3 – soja não convencional e certificação RTRS

       No município de Sebastião Leal no Piauí, a caravana foi recebida na câmara de vereadores pelo prefeito Ângelo Pereira e demais autoridades locais onde puderam debater acerca dos desafios da produção de soja e da conservação ambiental.
    Logo após a cerimônia, eles visitaram a fazenda Chapadão do Céu, propriedade em fase de adequação para receber a certificação RTRS, onde foram recebidos pelo proprietário Paulo Dalto e pelo presidente da Aprosoja do Piauí, Altair Fianco. Com aproximadamente sete mil hectares, a propriedade possui cerca de 80% de sua produção total com soja convencional (não transgênica).
    No período vespertino, a visita aconteceu em uma das fazendas do Grupo Progresso. A propriedade de 47 mil hectares em Sebastião Leal é responsável pelo cultivo de soja, milho e algodão, e também pelo beneficiamento do algodão em rama para transformar em pluma. Ela é uma das quatro fazendas da família Sanders, de origem holandesa, que chegou ao Piauí no ano de 2000 vindo do Rio Grande do Sul e que também possui propriedades em Paracatu, Minas Gerais.

Dia 4 – integração lavoura-pecuária-floresta

     No penúltimo dia, a comitiva seguiu para o município de São Raimundo das Mangabeiras, no Maranhão. O destino foi a fazenda Santa Luzia, uma propriedade que é referência em boas práticas agrícolas e na aplicação do sistema de integração lavoura, pecuária e floresta (ILPF), que começou com uma experiência de 10 hectares e hoje adota o sistema em quase 6 mil hectares. O proprietário Oswaldo Massao contou que após a inserção da Integração Lavoura Pecuária Floresta a realidade da propriedade foi completamente alterada e para ele, esse tipo de sistema é “o futuro do Cerrado”. Atualmente, ele faz três safras, uma de soja, uma de milho, milho safrinha com braquiárias e bovinos, obtendo um aproveitamento de 100% ou mais do solo.
      Em seguida, a comitiva foi recebida pela equipe técnica do Grupo RISA, para uma rápida visita à fazenda Roseira, localizada em Balsas. Na oportunidade, foi apresentado ao grupo o “projeto São José”, que consiste em três lavouras em cima de uma mesma área em um só ano.

Dia 5 – Chapada das Mesas

      A viagem de campo pelo Cerrado brasileiro encerrou-se em Carolina no Maranhão. A cidade que também é conhecida por “paraíso das águas”, por ter em seu território em torno de 89 cachoeiras e mais de 400 nascentes, é a porta de entrada da Chapada das Mesas. Um misto de sertão, bosques de buritizais, quedas d´água, cânions e paisagens de puro Cerrado, um dos biomas mais importantes do planeta e que responde por um terço da biodiversidade brasileira.
    “Nesta visita tivemos uma visão clara dos desafios ambientais e sociais que ainda existem, e pudemos conhecer as soluções que estão sendo construídas para contribuirmos e apoiar as iniciativas positivas que acontecem na região. Creio que podemos estar nesse momento escrevendo uma nova página para essa região e para a questão da soja no Brasil”, conclui Jean Timmers, líder global de soja do WWF.
 
Participantes:
Edegar de Oliveira – WWF-Brasil
Carolina Siqueira – WWF-Brasil
Kolbe Soares– WWF-Brasil
Maria Fernanda Maia – WWF-Brasil
Sandra Mulder – WWF-NL
Howard Lee – WWF-US
Margareta Restrom – WWF-Suécia
Zhonghao Jin – WWF-China
Margaret Arbuthnot – WWF-US
Kate Schaffner – WWF-US
Luis Neves – WWF Internacional
Jean Timmers – WWF Internacional
Ian MacConnel – WWF-Australia
Dmitry Burenko – WWF-Russia
Pavel Boev – WWF-Russia
Elly Peters –WWF-Bélgica
Lenaic Moniot – WWF-França


Fonte: WWF Brasil

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

POVO APINAJÉ DE LUTO

Morre a líder e cacique Maria Ireti Almeida Apinajé
       Informamos com profundo pesar e tristeza a todos os parentes (lideranças) indígenas de outros povos do Estado do Tocantins e do Brasil, bem como aos aliados da causa indígena e parceiros ambientalistas e indigenistas, o falecimento de Maria Ireti Almeida Apinagé, ocorrido no último dia 02 de junho de 2017, sexta-feira. O triste fato aconteceu na aldeia Brejinho na Terra Apinajé, onde morava com familiares. As causas ainda não foram totalmente esclarecidas ou determinadas.      Apesar da idade, Maria Ireti Almeida Apinagé, era mulher forte, guerreira e militante incansável da causa indígena. Na condição de mulher indígena, mãe, avó, trabalhadora, conselheira e liderança do povo Apinajé, cumpriu sua missão participando de inúmeras mobilizações e manifestações locais, regionais e nacional em prol da vida dos povos indígenas. Assim Maria Ireti Almeida Apinagé com sua força cultural, sabedoria, simplicidade, conhecimento de causa, s…

MANIFESTO DO POVO APINAJÉ

NÃO AO GOLPE; NENHUM DIREITO A MENOS!
      Nós caciques e lideranças Apinajé, incluindo jovens estudantes, professores, conselheiros, mulheres e idosos reunidos nos dias 02, 03 e 04 de maio de 2017 na aldeia Prata, T.I. Apinajé no município de Tocantinópolis – TO no Norte de Tocantins, somando mais de 100 pessoas viemos a público manifestar contra qualquer reforma e retrocesso conduzidos pelo governo Michel Temer que estejam comprometendo nossas conquistas e ameaçando nossos direitos sociais, ambientais e territoriais garantidos na Constituição Federal do Brasil.          Consideramos que esse governo, junto com a maioria dos parlamentares do Senado e da Câmara e parte do Judiciário têm atuado de forma agressiva para retirar nossos direitos constitucionais. Nos últimos anos estamos sendo violentamente ignorados e agredidos por setores empresarias e políticos articulados dentro dos três poderes da Republica.         Com a finalidade de roubar nossos territórios, esses parlamentares tent…

AGROECOLOGIA

Articulação Tocantinense de Agroecologia-ATA e Povo Apinajé, define data e local do 3º Encontro Tocantinense de Agroecologia      Durante o 2º Encontro Tocantinense de Agroecologia realizado no Quilombo Malhadinha, surgiu a proposta de realizar o próximo encontro na Terra Indígena Apinajé, localizada no município de Tocantinópolis no Norte de Tocantins. Dessa forma, na última terça-feira, 21 de março de 2017 realizamos na aldeia Brejinho, Reunião da Articulação Tocantinense de Agroecologia - ATA, na qual discutimos as possibilidades e condições do 3º Encontro Tocantinense de Agroecologia ser realizado na T.I. Apinajé.        Após intensa conversa entre as lideranças da Associação União das Aldeias Apinajé - Pempxà, Associação Pyka Mex e representantes da APA-TO, COEQTO, MIQCB, MAB, CIMI e UFT Campus de Tocantinópolis-TO, decidimos que o 3º Encontro Tocantinense de Agro ecologia será mesmo realizado na aldeia Patizal, na T.I. Apinajé, no período de 23 a 26 de novembro de 2017        Selma…